O SUPER PODER DA IDADE (E DAS AGULHAS)

A Avó Veio Trabalhar, em Portugal, transforma a vida de mulheres com mais de 60 anos ao valorizar sua sabedoria e explorar as infinitas possibilidades das artes manuais

Por Estela de Andrade - entrevista publicada na Urdume #03 [ago/2019]

Crédito: Deltaq Cereais

Avós reunidas em volta da mesa crochetam, tricotam, costuram e bordam. Poderia ser uma cena típica de antigamente, mas este é o cenário que encontramos ao passarmos pelas portas do espaço criativo “A Avó Veio Trabalhar”, em Lisboa, Portugal. Fundado pela designer Susana António e pelo psicólogo Ângelo Campota, o projeto reúne mulheres a partir dos 60 anos e defende que esta geração ainda tem muito a contribuir. Através da valorização do saber-fazer das avós, a iniciativa de design social mostra que é possível aproveitar a vida e planejar o futuro mesmo após os 80 anos.

Entre linhas, agulhas, fios e tecidos, mulheres se redescobrem e são desafiadas a saírem de sua zona de conforto, explorando novos terrenos. Juntas, elas criam e produzem peças que aliam técnicas tradicionais à estética contemporânea, trocam experiências com os mais jovens e vendem para o mundo todo. Só em 2018, foram produzidas mais de 600 peças e todo o lucro é revertido para a manutenção do espaço e as atividades do grupo, em geral viagens.

O projeto está em plena expansão para um local maior, que poderá abrigar não só mais participantes, como também eventos. A URDUME conversou com o co-fundador da “A Avó Veio Trabalhar”, Ângelo Campota.

URDUME. Como surgiu “A avó veio trabalhar”?

Ângelo Campota. A “Avó Veio Trabalhar” surgiu há cinco anos. Antes disso, a Susana [António] realizava um trabalho voluntário que explorava o papel do design como ferramenta de inclusão social com um grupo de senhoras na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Eram novas técnicas para esse tipo de público, por isso, o projeto teve muito eco na época e ela foi convidada para a Experimental Design Bienal para apresentar esse trabalho. O feedback foi bastante positivo, pois quebrou estereótipos do design como algo fancy, conceitual e artístico. O nosso encontro se deu em 2011, quando eu também coordenava um projeto inovador em Lisboa, o Remix, que consistia em uma oficina colaborativa de upcycling para refletir sobre o reaproveitamento e o desperdício industrial. O projeto envolvia atores locais e convidei uma série de designers, entre eles a Susana, para pensar objetos criativamente com base no reaproveitamento.

Por compartilhamos a mesma visão e defendermos as mesmas causas, decidimos criar a nossa própria organização, a Fermenta, para pensar e implementar os projetos que gostaríamos de realizar. Juntamos nossas experiências e surgiu “A Avó Veio Trabalhar”. Começamos em um centro comunitário, mas isso criava uma noção equivocada do que queríamos passar com o nosso projeto. Então desenvolvemos um espaço próprio, com a nossa identidade e loja, e demos um salto gigante em termos de crescimento. Assim, atraímos pessoas cheias de energia, mulheres que não queriam ser rotuladas como idosas ou velhas.


URDUME. Que mensagem vocês querem passar com o projeto?

Ângelo Campota. A idade é um superpoder, uma mais-valia e não uma maldição. Queremos mostrar que, de fato, as pessoas com mais de 60 anos têm igual valor e podem contribuir para a sociedade.A ambição de muitos é de que, com a idade, finalmente poderiam descansar, organizar-se e se dedicar à casa, mas isto tem um prazo de validade curto. Logo tudo isso já está feito e as mulheres, sobretudo, ficam sem um objetivo comum. Então, propusemos criar uma um espaço criativo em que aliamos o know-how das avós com uma linguagem mais contemporânea do design. Sempre utilizando a lógica do design colaborativo, de coprodução.

Atualmente, participam 70 avós que estão em diferentes pontos da cidade de Lisboa e várias delas vieram de outros países. Temos quatro brasileiras, por exemplo. Estamos nos mudando para um local bem maior que o atual, com 300 m², para conseguir receber ainda mais pessoas. Nossa ideia é que possamos oferecer oficinas para homens com mais de 60 anos interessados em desenvolver trabalhos em madeira, serigrafia ou pintura em cerâmica.

URDUME. Além dos produtos confeccionados pelas avós, elas estão envolvidas em outras atividades?

Ângelo Campota. Quando percebemos as demandas, rapidamente iniciamos outras atividades como decorações para festas – fizemos uma em Cannes na época do Festival de Cinema -, além de parcerias com empresas e marcas. Fizemos recentemente uma parceria com uma designer belga para uma coleção cápsula de saias evasê em crochê. Também desenvolvemos a capa do novo LP do cantor brasileiro Marcelo Camelo, concebido pela Mallu Magalhães, com linho serigrafado.

URDUME. Quando pensamos em trabalhos artesanais feitos por avós, logo vêm à mente peças com estética mais clássica. Porém, os produtos feitos pelo grupo de avós do projeto possuem design atual, com cores vibrantes. Como foi para as avós produzir peças com as quais não estavam familiarizadas?

Ângelo Campota. Elas estavam habituadas com o clichê do clichê: roupinhas de bebê, mantas, casacos. Usavam sempre as mesmas cores, o azul para os rapazes e o rosa para as meninas. A nossa proposta sempre foi trazer peças diferenciadas, mas com base na sabedoria delas. Além, de um conceito mais atual e que nos permitisse chegar a um outro tipo de público, um público mais jovem. Atualmente, são muito poucas as pessoas que valorizam essas peças que as avós faziam antigamente, como colchas de cama. Infelizmente, ninguém compra. Então, o que fizemos foi recuperar essa tradição, mas trazer um conceito novo e uma paleta de cores atraente.

As avós, inicialmente, não compreendiam as peças, duvidavam que podiam ser vendidas, mas hoje, criamos juntos. Temos um grupo máster de 15 avós e fazemos um brainstorm, trocamos ideias. Então, elas estão por dentro de todo o processo de produção, é muito colaborativo. Elas dão ideias e isso também funciona como um trabalho prévio de identificação das avós com as peças.

crédito: @arlindocamacho02

URDUME. O projeto funciona como terapia, trabalho e inclusão social das avós participantes. De que maneira as artes manuais promovem o resgate da autoestima dessas mulheres? Qual o impacto do projeto na vida delas?

Ângelo Campota. Em primeiro lugar, o projeto reforça e valoriza as competências e o conhecimento dessas mulheres. E isso acontece não só no momento da produção, mas também durante a venda das peças feitas por elas, uma vez que vão para vários cantos do mundo. Todos os produtos possuem uma tag com a foto da avó que produziu, o que traz toda uma história a ser contada desde a produção da peça até chegar às mãos do comprador. Quando elas veem tudo isso e percebem que suas peças são compradas, ficam muito contentes e há uma valorização pessoal. Há mulheres que chegam aqui e que estão passando por um processo de viuvez, por exemplo. Procuram o coletivo para se sentirem apoiadas.

URDUME. Você pode nos contar a história de alguma avó?

Ângelo Campota. Temos o caso da Lucinda, que está com a gente há 2 anos e ia muito à farmácia comprar remédios para ansiedade, pois recentemente tinha ficado viúva. Um dia, a atendente da farmácia lhe recomendou “A avó Veio Trabalhar”. Em seis meses, Lucinda recuperou a sua vontade de viver e é uma mulher completamente diferente. Para você ter uma ideia, neste momento ela já procura um namorado, não se veste mais de preto, fez amigas, vai ao cinema, vai passear aos domingos, recebe para jantar... É como ter acesso a um novo suporte medicinal, elas não estão sozinhas, há uma rede de suporte.

Também temos o caso da Luísa, de 80 anos, que é incrível. Ela fundou um Centro de Reabilitação e trabalhava com terapia ocupacional. Não queria se aposentar, mas quando chegou a hora, os filhos descobriram e indicaram o nosso projeto. Desde então, ela nunca faltou um dia. Entende essa rotina como sendo seu trabalho. É uma forma de abraçar a vontade que tinha de dar continuidade a sua carreira profissional.

URDUME. No Brasil, passamos por um movimento de resgate das atividades manuais. Portugal passa pelo mesmo processo?

Ângelo Campota. O “do it yourself[faça você mesmo, em Português] é uma tendência, portanto vivemos um momento de recuperação desses trabalhos manuais e também do saber fazer. Só que esta geração, muitas vezes, não teve a oportunidade de aprender habilidades manuais com suas respectivas avós. Em nossos workshops, seja de bordado, tricô ou crochê, percebemos um público, em geral, entre os 30 e 50 anos. São pessoas que valorizam a sabedoria da avó e esse contato. Também temos o workshop criativo para turistas através de uma parceria com o Airbnb, onde turistas reservam uma experiência com a avó. Recebemos visitantes do mundo todo.

Mas também temos casos de avós que chegaram aqui para aprender. Tudo depende da geração e das suas histórias de vida. Cerca de 80% das mulheres que participam do projeto não são de Lisboa. Vieram de outros cantos do país e migraram para a capital para trabalhar. É uma geração de avós que, infelizmente, não teve contato com os trabalhos manuais das suas próprias avós. Por isso, temos algumas mulheres que chegam até nós com a ambição de finalmente poderem aprender. E valorizamos de verdade essa sabedoria.

URDUME. Em 2018, as avós fizeram uma parceria com a artista brasileira Mana Bernardes. Como foi a produção da obra "Mátria" e essa ponte Portugal-Brasil?

Ângelo Campota.“Mátria” foi uma escultura em espiral de quatro metros feita em linho com poemas bordados. Um foi escrito pelas avós e o outro foi feito pela Mana Bernardes, inspirado nessa ligação Portugal-Brasil e na força das mulheres quando elas bordam juntas. Foi um processo muito intenso, com uma experiência imersiva no cotidiano das avós, pois a Mana resolveu fazer um trabalho de autodescoberta das mulheres portuguesas. Um trabalho incrível, que culminou em uma performance no dia da abertura da exposição que foi quase catártica.

crédito: @pedrosadio

URDUME. Qual o balanço dos resultados do projeto até o momento? E os planos futuros, alguma novidade que já podem contar?

Ângelo Campota. Há 5 anos, nunca imaginaríamos chegar onde estamos agora. Então, sempre que fazemos uma retrospectiva costumamos dizer que o projeto não tem cinco e sim dez anos! Porque fizemos milhões de atividades e somos um dos projetos mais conhecidos de Portugal. Diariamente, somos convidados o passar nossa mensagem e partilhar a nossa experiência por todo o país.

Estamos, neste momento, em fase de crescimento. Vamos inaugurar um novo espaço em setembro e estamos montando uma extensão do conceito da “A Avó Veio Trabalhar” na Ilha de São Miguel, nos Açores. Portanto, a nossa ambição futura é de fato continuar a trabalhar e conseguir alcançar cada vez mais pessoas. Gostaríamos também de participar em mais Design Weeks pela Europa e temos uma vontade gigante de poder fazer coisas e colaborar com o Brasil, de ir até aí para passar a nossa mensagem.


Curitiba - Brasil

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