Estefania Lima, co-fundadora do Instituto Urdume, compartilha sua experiência com a fibra de cânhamo a partir de um olhar filosófico e social do vestir


Toda roupa satisfaz necessidades naturais e responde a exigências culturais. Pode conferir identidade, marcar uma diferença social, elevar ou rebaixar simbolicamente um indivíduo em relação aos outros e, segundo Emanuele Coccia, principalmente, evidencia a nossa individualidade. Segundo o filósofo, ao usarmos roupas nos confundimos com um traço do mundo (como as fibras) que não tem nada a ver conosco. Para que nos tornemos absolutamente reconhecíveis, nos confundimos com algo externo a nós. Uma matéria-prima completamente estranha se torna mais próxima a nós e ao nosso eu do que nosso próprio corpo. É sobre esta matéria-prima que eu gostaria de falar neste texto.


Ao afirmar que a roupa é um elemento propriamente humano, que o ser humano é o animal que aprendeu a se vestir, e que, vestir-se é estar nu fora de si, Coccia nos faz ver como nossas escolhas de moda, sempre - em alguma medida - atravessadas pelo social, são também reflexo do nosso estar no mundo. Olharmos então para esse traço de mundo com o qual expressamos nossa individualidade é entender a história que eles carregam para além de seu aspecto funcional.


As fibras como traços do mundo




Em novembro de 2021 o Instituto Urdume, em parceria com a Made By You, criou o FIBRAS - Urdume + Made By You, projeto de educação para o consumo de têxteis e moda. Lançamos o primeiro de uma série de quatro vídeos sobre diferentes fibras têxteis, o episódio sobre cânhamo. A planta, Cannabis sativa, de onde extraímos a fibra, é constantemente pauta de debate público, já que seu plantio e comercialização foi por muito tempo demonizada e em alguns países, como no Brasil, até hoje é proibida.


Acontece que uso da Cannabis para os mais diversos usos é milenar, e pesquisas científicas realizadas nos últimos anos resultaram na produção industrial de remédios cujo CBD (canabidiol) é o principal componente e que têm sido usados no tratamento e alívio de sintomas do Alzheimer, autismo, depressão, entre outras condições de saúde. As propriedades terapêuticas da planta têm movimentado um mercado de aproximadamente 10 bilhões de dólares por ano e ampliado a discussão sobre o uso da planta também em outros setores, como na produção de cosméticos e têxtil. Em todos estes casos, têm-se destacado a diferença entre a maconha, rica em THC (tetrahidrocanabinol), utilizada para uso recreativo, e o cânhamo, com baixo teor de substâncias psicoativas e fonte para extração do CBD e das fibras.


Mesmo com essas diferenças, no Brasil o plantio da Cannabis, seja maconha ou cânhamo, é proibido, embora haja chances de aprovação do projeto de lei (PL) 399/15, que trata do plantio de Cannabis no Brasil para uso científico, medicinal e produção de fibra, celulose e resina. Ainda assim, já é possível ter acesso a fios e tecidos feitos da fibra graças a importação de países como a China, responsável pela produção de 70% da produção mundial, além de França, Áustria, Chile, Reino Unido e Estados Unidos.


As vantagens da fibra de cânhamo são inúmeras. Oriunda do talo da planta, seu fio é extremamente resistente, não é suscetível ao encolhimento e é altamente resistente ao pilling (bolinhas). Com textura similar ao algodão, supera seu concorrente no tempo reduzido de produção, menor ou nenhum uso de pesticidas e durabilidade, enquanto uma camiseta de algodão dura aproximadamente 10 anos, uma camiseta de cânhamo pode durar o triplo do tempo.


E suas qualidades não param por aí, a fibra de cânhamo ainda facilita a passagem da umidade da pele para a atmosfera, sendo ideal para climas quentes como o do Brasil. É fácil de tingir, altamente resistente a mofo e suas fibras não se degradam mesmo após dezenas de lavagens. Pelo contrário, a tendência é que a água colabore com o amolecimento da fibra, tornando o tecido ainda mais macio. Seria o cânhamo a fibra perfeita?


Pensando na fibra como aquele traço do mundo, que usamos para definir a nossa personalidade, com o cânhamo temos não apenas uma fibra com ótimas qualidades funcionais, mas toda uma cadeia de transformações que podem vir através dela. Se por um lado, hoje ainda precisamos importá-la, o que implica em questões que podem vir a ser problemáticas, usá-la, conhecê-la e requisitá-la ao mercado ajuda a pressionar decisões sobre plantio e comercialização que afetaram positivamente não apenas indústria da moda, como tratamentos medicinais, a indústria do plástico, construção civil, entre outros, todos com potencial extremamente revolucionário.


Sendo assim, sinto que tecer com o fio de cânhamo tem sido uma forma de posicionamento ético, estético, poético e político. Vestir as roupas que faço, com uma matéria-prima cujos os impactos eu posso dimensionar, faz com que a vida que a minha roupa ganha vá além de mim, através de mim.


Assista o primeiro episódio da série FIBRAS:




Desde 2020 a Made By You oferece fio de composição 100% cânhamo, com 1176tex de espessura, para crochê (agulha 2,50 mm a 3,5 mm) e tricô (4,0 mm a 5,0 mm). Saiba mais: https://www.madebyyoustore.com/fios/fio-74-de-canhamo