A comunicadora Giovanna Nader leva para a vida as lições que aprende em sua relação sem regras e, sustentável, com a moda. Consciente, mas otimista, Giovanna acredita que o importante é fazer a sua parte da mudança.



crédito Guilherme Nabhan

De acordo com relatório da empresa americana ThredUp (2018), o mercado de roupas de segunda mão dobrará de 20 bilhões para 41 bilhões até 2022. O mesmo estudo diz também que em 10 anos as venda de roupas de brechós devem superar as de fast fashion e responder por até 11% do guarda-roupa das pessoas. A mudança é alavancada por millennials, jovens entre 18 e 29 anos, que na hora de consumir têm preferido comprar de marcas ambientalmente conscientes esvaziando as lojas de departamento e fast fashions.


No Brasil uma das vozes que vêm levantando a bandeira das roupas de segunda mão e consumo consciente é Giovanna Nader. A comunicadora, formada em administração com especialização em branding, conheceu de perto a realidade das grandes marcas de fast fashion, ao trabalhar com empresas do segmento no começo de sua carreira. A mudança de rumo veio com o Projeto Gaveta - rede de troca de roupas usadas que toca com a sócia Raquel Vitti Lino, desde 2013, quando percebeu a possibilidade de atuar com uma moda mais humana Segundo ela, o projeto foi um portal para uma série de mudanças que faria em sua forma de consumir dali pra frente.


Em 2017, o que já era um desejo, comunicar sua experiência para o mundo, ganhou força graças à maternidade. Com o nascimento da filha Marieta, Giovanna criou coragem para se posicionar cada vez mais publicamente sobre o tema. Hoje, além de dar continuidade ao Gaveta (atualmente um festival anual de moda consciente), produzir conteúdo para redes sociais, e estar escrevendo seu primeiro livro, é também uma das apresentadoras do “Se Essa Roupa Fosse Minha”, programa sobre brechó, roupa vintage e consumo consciente, uma cooprodução da Conspiração, Confort e GNT. Otimista, entusiasta das novas gerações e movimentos com propósito, Giovanna aceitou de pronto o convite para conversar sobre todas essas transformações com a gente.


URDUME. Giovanna, como a moda entrou na sua vida?

Giovanna Nader. Por acaso. Eu me formei em administração com ênfase em marketing, muito naquela onda de não saber exatamente o que fazer, mas acabei me apaixonando por branding [ações alinhadas ao posicionamento, propósito e valores de uma marca]. Trabalhei por um tempo com a áreas em multinacionais, até que, em 2010, fui fazer um curso de branding em Barcelona. Era um curso muito legal, em que cada ano se estudava uma marca diferente. No meu ano foi a Inditex, [maior grupo de moda do mundo, responsável por marcas de fast fashion como a Zara]. Paralelamente, essa foi a primeira vez que eu tive acesso ao fast fashion como “quintal da minha casa”. No Brasil, a gente ainda não tinha isso, então eu passava na frente de uma H&M [marca de fast fashion sueca] e era muito difícil não parar e comprar alguma coisa. Porque embora eu gostasse de moda, nunca tive dinheiro para comprar marcas caras. Então quando tive acesso à todas as tendências de moda por um precinho de banana, eu aproveitei. Mas o barato sai caro, de pouquinho em pouquinho acabei gastando muito dinheiro, comprei muita roupa, mas voltei para o Brasil apenas com as roupas que havia comprado em brechós. Naquela época Barcelona já era o paraíso dos brechós, e eu me abri para esse mercado de segunda mão sem preconceito.


URDUME. E como foi a volta para o Brasil?

Giovanna Nader. Pois então, apesar de ter voltado para o Brasil sem minhas roupas de fast fashion (porque estavam velhas ou cheia de bolinhas), naquele momento não me atentei para o real motivo. Como tinha feito uma pós-graduação sobre o mercado de moda, acabei indo trabalhar para a extinta 284 Brasil, que se intitulava a primeira fast fashion brasileira. Por conta dessa experiência, tive muito contato com esse universo todo: mudanças de coleção, custos baixos, exclusão dos corpos fora do padrão, era uma atmosfera muito aprisionante. Por isso, chegou uma hora que eu resolvi pedir demissão e comecei a trabalhar como consultora de branding freela. Foi quando a Raquel [Vitti Lino], que tinha morado comigo em Barcelona, e hoje minha sócia, falou: “vamos trocar roupas entre amigas?” Topei na hora e entendi que essa poderia ser uma oportunidade de trabalhar com uma moda mais humana do que aquela com a qual eu vinha atuando.


URDUME. Foi assim que nasceu o Projeto Gaveta?

Giovanna Nader. Sim, em 2013 fizemos a primeira edição do projeto já com 70 pessoas e cinco mil peças recolhidas. Foi uma loucura, porque não tínhamos logística para lidar com aqueles números. Mas quando vimos tudo aquilo acontecendo, todas aquelas pessoas trocando suas roupas super felizes e renovando seus guarda-roupas sem gastar nada, a gente entendeu que não podia mais parar. Nós não sabíamos como faríamos a cada ano, mas tínhamos que seguir com a ideia. Desde então já tivemos 65 mil peças circulando através do projeto e a cada ano ele se reinventa. Hoje ele já é um festival de moda sustentável. Nós temos palestras, oficinas, e a cada ano abordamos um tema, no último foi sobre representatividade. A próximo edição será sobre manualidades. A ideia é que os participantes façam uma grande imersão em uma nova maneira de se relacionar com a moda.


URDUME. O Gaveta foi o seu grande ponto de virada para uma vida mais sustentável?

Giovanna Nader. Na verdade a sustentabilidade foi acontecendo aos poucos na minha vida, mas certamente o Gaveta foi uma chavinha de virada a partir da qual fui conhecendo pessoas iluminadas, como as meninas do Fashion Revolution, por exemplo. A partir desses encontros é que eu fui mudando a minha percepção sobre aquela moda padrão.


URDUME. E como você se define profissionalmente hoje?

Giovanna Nader. Hoje sinto que estou em um período de transição, me vejo como comunicadora e acho que essa é a minha grande potência. Algo que eu já tinha vontade de fazer, mas ganhou força após o nascimento da minha filha, sabe, essa força sobre humana que passamos a ter depois que nos tornamos mães. Depois que ela nasceu eu pensei, “agora vai ou racha”. Passei a me posicionar publicamente sobre o tema e comecei a ter um retorno muito legal com isso. Eu adoro ajudar a mudar a visão das pessoas, porque acredito muito que a mudança venha delas, não dá para esperar isso das marcas.


URDUME. Mas as marcas também estão mudando, não?

Giovanna Nader. Sim, é verdade, mas só por causa da pressão das pessoas. E nesse sentido a moda é mesmo um mercado pioneiro. Apesar de ser um mercado muito poluente, a indústria da moda tem levantado, mais do que nenhuma outra, a bandeira da sustentabilidade. Muitas ações ainda são só greenwashing [apropriação de um discurso ambientalista que não acontece na prática]? Pode até ser, mas uma marca de moda hoje não faz mais sucesso se não tocar nesse assunto.




URDUME. E o “Se Essa Roupa Fosse Minha” [programa de televisão que Giovanna apresenta no canal GNT ao lado da estilista Ana Paula Xongani e a figurinista Marina Franco] é fruto dessa sua nova fase como comunicadora?

Giovanna Nader. O “Se Essa Roupa Fosse Minha” foi um convite que recebi Conspiração, Confort e GNT. Eles estavam procuravam pessoas com nosso esse perfil para apresentar um programa de entretenimento sobre brechó, roupa vintage e consumo consciente. Somos três apresentadoras, cada uma com seu perfil, eu falo de estilo de vida sustentável, a Xongani de manualidades e a Marina figurino. A TV atinge diferentes públicos, então procuramos fazer um programa leve, mas com conteúdo. O processo de construção dessa narrativa foi ótimo, tivemos muita liberdade para contribuir na construção do roteiro, e o resultado final ficou muito legal.


URDUME. Levar o brechó para televisão é uma conquista, não?

Giovanna Nader. O mercado de brechó está crescendo muito, porque ele faz muito sentido para o momento que estamos vivendo no país. Estamos em uma crise financeira, e ele é mais barato, temos sérias questões ambientais, e ele circular, valorizamos cada vez mais o estilo, e ele é hype. É uma delicia garimpar uma roupa bem brecholenta.


URDUME. Essa parece ser uma atividade com a qual você se diverte muito, como você faz suas escolhas de moda?

Giovanna Nader. Me vestir tem se tornado cada vez mais uma diversão. Antes de mudar minha percepção sobre a moda eu não tinha um estilo definido, vestia o que via nas amigas. Mas o processo de encontrar seu estilo é um processo de autocuidado, a construção de um novo olhar para você mesmo. Eu gosto de me inspirar na arte: livros, exposições,viagens, experiências... É muito gostoso usarmos uma roupa com a qual nos sentimos bem, ou garimpar uma peça, comprá-la por 3 reais, e vesti-la sabendo que ela carrega uma história. Não sigo regras na hora de me vestir.


URDUME. Como você enxerga essa liberdade na forma de se vestir refletindo na sociedade?

Giovanna Nader. Eu acredito muito que a moda acompanha os movimentos sociais. Agora estamos vivendo um momento político brasileiro tão difícil, baseando em censura, que quer colocar a mulher em um papel inferior, mas nós, mulheres, estamos mostrando justamente o contrário em nossas roupas. Eu por exemplo, abandonei o sutiã. Eu posso andar sem sutiã, então eu ando mesmo. Os padrões estão caindo. Antes falar que alguém era gorda era uma ofensa, hoje, uma mulher confiante usa isso a seu favor. Antes você precisava caber na roupa, agora a roupa que tem que caber em quem você é.


URDUME. E como encontrar essa roupa quando pensamos em brechó? Quais são as dicas para a compra de segunda mão?

Giovanna Nader. A minha principal dica é disposição. Brechó não é loja nova, não vai estar tudo à mão, e com todos os tamanhos disponíveis. Não dá pra você ir pensando “quero achar uma blusinha assim”, quer dizer, até dá, mas o lance é muito mais a surpresa. É preciso ter disposição para entender que essa roupa já foi usada e, por isso, pode ter um furinho, já ter sido mexida, ter alguma mancha. Prestar atenção na fibra e na qualidade da roupa, já que muitas das roupas de fast fashion, feitas de poliéster (que fazem bolinhas em poucas lavagens) também têm parado nos brechós. Além disso, é bom saber qual o tipo de brechó ideal para você, de roupas seminovas, vintage, bazar, e claro, desapegar das tendências.


URDUME. E como você leva a atitude do brechó para a vida?

Giovanna Nader. Para comprar em brechó você precisa saber muito bem o seu estilo, usar a roupa como uma metáfora, olhar para dentro de você. E essa visão que eu tenho da moda hoje, eu passei a ter em tudo na vida, a forma como consumo comida, cosméticos ou faço o descarte de resíduos.


URDUME. Vivemos tempos de crise e, apesar de fazer alertas para esses problemas, você parece ser uma pessoa bastante otimista, é isso mesmo?

Giovanna Nader. O modelo capitalista no qual que vivemos está falido e destruindo o planeta,

mas para tudo na vida há uma solução, e tem muita gente fazendo coisas importantes para mudar isso. Eu preciso acreditar que é possível, e acho que encontrar esses novos movimentos movidos por propósito, querer fazer parte deles, já te ajuda nisso. A gente cresceu acostumados com um modelo de consumo destrutivo, mas os nossos filhos, a nova geração já está agindo diferente. Cabe a nós nos inteirarmos para vivermos em harmonia com essa forma mais cuidadosa de pensar. Eu não sei se seremos mais rápidos do que todas essas catástrofes que estão nos destruindo, mas eu gosto de pensar que esse é o último suspiro de conservadorismo patriarcal. É claro que tem dias que o desânimo bate, mas acho que a chave é não se deixar paralisar e promover as mudanças possíveis, como andar de bicicleta, comprar orgânicos (os lá de casa compramos do MST),, compartilhar ao invés de possuir, e apoiar os movimento de mudança que já estão por aí. Fora isso, todos nós temos uma rede de influência , seja ela grande ou pequena. Então vamos conversar com as pessoas, explicar. Cabe a nós, que já temos consciência sobre essas questões difundir essas ideias. No mínimo sair da inércia te dará a paz de estar fazendo alguma coisa pelo planeta.


URDUME. , Você se declara uma ecofeminista, poderia nos falar um pouco sobre esse movimento?

Giovanna Nader. Sim, e me sinto cada vez mais. O ecofeminismo é um movimento que fala sobre a libertação de todos os seres da terra. Não exclui nenhum movimento, só agrega, e diz que nós, como mulheres oprimidas, não podemos reproduzir o papel de opressor com a natureza. É lindo pensar no movimento Chipko de defesa da floresta empreendida por mulheres de comunidades rurais da Índia nos anos de 1970, elas abraçavam as árvores do bosque local para que não fossem derrubadas por empresas. Nós, mulheres, precisamos nos colocar como defensoras da natureza, porque de fato quando falamos de sustentabilidade, somos nós que estamos à frente na luta. Eu acho que isso tem a ver com a nossa natureza, com o fato de sermos divinas, a gente gera vida, e isso é muito poderoso. Por exigências do mundo patriarcal, muitas de nós precisam se comportar como homens para sobreviver e serem respeitadas. Nos masculinizamos no que tem de ruim no masculino e esquecemos da nossa potência como mulher. O mundo precisa e está cada vez mais aberto a respeitar e ouvir vozes femininas. A voz coerente e genuína da nova geração, Greta Thumber [ativista ambiental sueca, de 16 anos, conhecida por ser a líder do movimento Greve das escolas pelo clima], está aí para nos demonstrar isso.


Com formação em Belas Artes e cinco livros lançados, a designer que revolucionou o crochê diz enxergar artes manuais como estilo de vida para manter o equilíbrio e exercer a cidadania


Por Cristine Bartchewsky e Heloisa Selles - entrevista publicada na Revista Urdume #03


crédito: divulgação Molla Mills

Certa vez, quando conversávamos em sua primeira visita ao Brasil, a finlandesa Molla Mills comentou que, enquanto fazia crochê sozinha em sua casa em Kurikka (cidade com vinte mil habitantes situada há quatro horas da capital, Helsinque), nunca imaginou ser popular em tantos lugares do mundo.


Molla nasceu em uma família e uma cultura nas quais ser artífice faz parte do cotidiano. Entre outras técnicas presentes em seu dia a dia, o crochê sempre foi a favorita e compreendida também como atividade terapêutica e de manifesto.


Apesar disso, ou talvez justamente pelo fato de o crochê estar tão integrado à sua vida, somente ao fim de dez anos de estudos ela se deu conta de que poderia aliar essa prática aparentemente comum à experiência acadêmica.


Aluna rebelde, ligada a movimentos de vanguarda que fizeram parte de sua formação na juventude, reuniu o conhecimento em design a um repertório peculiar em seu trabalho de conclusão de curso. O que resultou na publicação de seu primeiro livro - Virkkuri (ed. Nemo, 2013) no Brasil, traduzido Crochê Moderno (ed. GG Brasil - Gustavo Gilli, 2017) –, responsável pela revitalização dessa arte ancestral que parecia congelada há décadas.

Esse feito parece ter dividido a linha do tempo da história do crochê entre antes e depois de Molla Mills. Mais que isso, ao expressar sua subjetividade por meio do fazer manual e materializar seu estilo de modo autêntico – ao invés de apenas reproduzir a técnica –, Molla, sem dúvidas, encoraja a comunidade artesanal a refletir sobre seu papel e formas disruptivas de atuar.

A designer contou mais à Urdume sobre suas inspirações, aspirações e sobre o fazer manual como resistência e um mundo que avança cada vez mais para o virtual.


URDUME. Crescida em uma família que respirava a cultura do DIY, envolvida em costura, carpintaria, bordado, o que você acha que a atraiu para o crochê, dentre todas as artes manuais?

Molla Mills: O crochê sempre foi o tipo de arte feita a partir das sobras de fios e outros materiais reciclados. Não tem o mesmo valor que, por exemplo, o tricô e a tecelagem possuem. Talvez essa seja a razão pela qual eu quis focar na cultura do crochê - para ser bem sincera, eu amo tanto crochetar que eu queria escrever livros sobre isso. Cresci em uma família de pessoas que faziam tudo elas mesmas e isso teve um enorme impacto em mim. Adorava experimentar materiais diferentes. Hoje só faço crochê, mas espero ter mais tempo para aprender novas técnicas em breve. Cestaria é uma arte que eu adoraria aprender. Antes disso, no entanto, tenho muito o que fazer com crochê. Todo mundo conhece os “granny squares” [os famosos quadradinhos de crochê, também conhecidos como quadradinhos da vovó no Brasil], mas eu gostaria de renovar este conceito, criar uma nova imagem quando as pessoas pensam sobre crochê.


URDUME. Você mencionou, certa vez, que o livro Crochê Moderno é o resultado do trabalho de conclusão de curso para a universidade. Pode nos contar mais sobre isso?

Molla. Foi o meu projeto final de quando eu estudava arte [Molla tem um mestrado em Belas-Artes]. Queria juntar todos os dez anos de estudos criativos e fazer algo com eles. Levei alguns meses para realmente descobrir o que seria, então um dos meus professores me disse que eu poderia fazer algo maior com crochê. Ele sempre me via fazendo crochê durante as aulas e me fez perceber que era o que eu fazia de melhor. Então comecei a fazer um livro. Encontrei um editor, meu amigo me indicou à Nemo, minha editora na Finlândia, fizemos um contrato e, finalmente, publicamos cinco livros. Me sinto muito sortuda de ter encontrado uma editora. Levei um ano e meio para terminar o primeiro livro, os outros levaram um pouco menos.

URDUME: O crochê parece ter, em sua natureza, um apelo um tanto barroco, com babados, curvas, floreios. Seu trabalho, uma combinação de ideias simples, inovadoras e funcionais, traz uma nova roupagem a essa arte. Assim como o design finlandês, conhecido por suas combinações de cores e padrões gráficos marcantes, suas peças tem uma “assinatura Molla”. Como você relaciona o seu trabalho com crochê e a sua experiência acadêmica com design?

Molla. O crochê tem mesmo muitos estilos e padrões diferentes - ele pode ser artístico, pode servir para objetos de decoração, pode ser algo prático para você usar. Minha ideia era fazer algo que você pudesse carregar, como uma bolsa. Amo bolsas, sou a senhora das bolsas, e todos os meu livros estão cheios de padrões para bolsas de crochê. A ideia de fazer apenas padrões práticos vem dos meus estudos de moda, e a aparência geométrica dos meus trabalhos vem dos meus estudos em design industrial. Eu era uma aluna um pouco rebelde, não participava de trabalhos em grupo ou trabalhos de design contratados por empresas, eu sempre fazia algo sozinha. Quando eu era mais nova, passei por muitos estilos diferentes, punk, gótico, vintage, e essa mistura de décadas e estilos sempre me inspirou. No entanto, a maioria dos meus trabalhos em crochê é geométrica e atemporal, com desenhos que se encaixam com basicamente qualquer estilo que você possa ter. Apesar de não ser um design tipicamente finlandês, muitas vezes ouço falar que os meu padrões tem algo de escandinavo. Talvez eu tenha que acreditar nisso, apesar de sempre querer manter as portas abertas, evitando categorização.


URDUME. O que o lançamento do livro Crochê Moderno (em tantos países e línguas diferentes) trouxe para a sua vida?

Molla. Viagens. Eu nunca viajei tanto e, mesmo exigindo muita organização, sendo caro e levando bastante tempo de um lugar para o outro para dar aulas de crochê, eu adoro. Se eu estivesse atrás de dinheiro eu não teria escolhido essa carreira, mas há tantas outras coisas que importam na vida. Eu conheci pessoas incríveis ao redor do mundo, ganhei tanta inspiração, experimentei comidas diferentes e tudo isso teve um enorme impacto positivo na forma como me sinto e me vejo. Eu sou muito mais aberta à vida hoje do que antes de ter começado a viajar.


URDUME. Quais são as suas referências para criar peças? Quem foram as pessoas que te influenciaram?

Molla. Tudo que vejo me inspira. Eu tiro fotos, faço desenhos, presto atenção às cores nas paredes, pisos de cerâmica no chão, flores no jardim. Eu nunca ouso encarar pessoas, mas já percebi que algumas pessoas de personalidade única também me inspiram. Sempre fico feliz de ver pessoas corajosas que se vestem de uma forma marcante.


URDUME. Como você entende o papel do artesanal em uma época dominada pela tecnologia?

Molla. Eu vejo como uma atividade cada vez mais importante. Para mim, fazer coisas com as minhas próprias mãos é um estilo de vida, e também é bom para a saúde mental, sair da loucura do mundo online. Você vê tanta gente andando na rua com um celular nas mãos e os olhos na tela, é assustador. Mas se você às vezes vê uma pessoa fazendo alguma arte no ônibus, você fica feliz, né?



URDUME. O que você acha do artesanato estar desempenhando papéis diferentes, por exemplo, como forma de manifestação política e expressão social ? Como bordados com uma temática feminista, por exemplo?

Molla. Eu acho incrível. Isso é o que eu fazia como uma jovem punk também, a minha roupa era o meu manifesto. Fico feliz de ver as pessoas fazendo arte por uma boa causa. Devo admitir que sinto um pouco de saudade dos meus anos punk, quando eu usava as coisas que criava da cabeça aos pés e nunca me sentia constrangida. Quando você trabalha profissionalmente, você se torna muito mais crítico em relação às próprias criações. Antigamente, fazia um suéter com uma rede de pesca velha e o vestia sem preocupações, agora eu tenho que pensar duas vezes. É muito importante se manter original e abraçar um pouco da loucura que temos dentro de nós. Em mim, ela se manifesta em peças de crochê.


URDUME. Para terminar a nossa conversa, uma pequena provocação: porque você faz crochê? O que sente quando faz crochê?

Molla. Me sinto relaxada, tranquila e ancorada. Me sentar em silêncio e crochetar é a minha atividade favorita. Eu amo pesquisar materiais em armarinhos, testar fios, falar sobre fios, tomar uma xícara de café e fazer mais crochê. É o modo de me acalmar facilmente e entrar fundo dentro de minha própria bolha, mesmo em uma tarde cheia de compromissos.



Famosa entre as décadas de 1970 e 1990, as máquinas domésticas de tricô - que caíram

no esquecimento da maioria das pessoas - ganham vida nova com as mãos e cores de Jéssica Costa


crédito das fotos: Juss

Na década de 1960, época de forte industrialização no Brasil, imigrantes italianos se instalaram na região das cidades de Jacutinga e Monte Sião, em Minas Gerais. Entre eles, estava o jovem Antônio Pieroni, responsável por trazer a primeira máquina manual de fazer tricô para o país, a Lanofix, transformando a região em referência nacional na fabricação de malhas e tricô.


Febre entre as décadas de 1970 e 1990, hoje em dias as máquinas domésticas de tricô são desconhecidas da maioria das pessoas. Diferente das máquinas domésticas de costura, as antigas Lanofix - como ficaram conhecidas na época - deixaram de ser popular com o tempo e, apesar de ainda serem produzidas, a tecnologia continua a mesma, o que faz com que seja mais comum adquiri-las de segunda mão.


No meio termo entre um tear e uma máquina digital, as Lanofix ou Brother (marca japonesa importada pela a Elgin durante muito tempo) não fazem com que a feitura do tricô deixe de ser manual, como nos explica a artista e mentora têxtil Jéssica Costa, de 31 anos que, quase 60 anos depois, ajuda a manter o ofício vivo.


Na sua Casâtelie, na Vila Madalena, em São Paulo, Jéssica, que é formada em designer de moda, dá aulas de design em tricô para estudantes de moda interessados na técnica que aprendeu no extinto Atelier Knit-1, em Brighton, na Inglaterra. Foi em seu espaço também, rodeadas de máquinas de tricô dos anos 1980 e 1990, que ela recebeu a Revista URDUME para um bate-papo sobre seu trabalho. Com um estilo marcado pelo uso das cores, a artista nos contou sobre como seu encontro os fazeres manuais e sua paixão pelo tricô.


URDUME. Jéssica, de onde surgiu seu interesse por máquinas de tricô domésticas? Existia uma na sua casa?

Jéssica Costa. É curioso, porque a minha história não tem essa bagagem familiar, a minha mãe gosta mesmo é de dançar (risos). O meu interesse veio mesmo quando entrei na faculdade moda e me interessei pela área têxtil. Eu lembro de uma professora dizer que as grandes inovações viriam daí, dos novos tipos de materiais e superfícies. Então comecei a me interessar por, conheci o trabalho da Sandra Backlund [designer de moda sueca especializada em esculturas de tricô] e despertei para as técnicas manuais. Comecei a fazer aulas em armarinhos, mas as professoras tinham dificuldade em me ajudar quando queria criar algo diferente. Meu TCC [trabalho de conclusão de curso] eu já fiz todo em técnicas manuais e a conexão qu etemos com os objetos e memórias. Eu nunca me identifiquei com esse mercado tradicional da moda, essa coisa de criar coleções, então fui trabalhar em uma multinacional de fabricação de produtos têxteis e de costura. Ali eu já atuava com técnicas manuais, mas decidi me aprofundar e fui fazer um curso na Knit-1 [famosa escola de tricô que existia na Inglaterra]. O que era para ser um curso nas minhas férias de um mês se tornou em sete meses de estudos. Foi lá que aprendi a trabalhar com as máquinas de tricô e mergulhei em novas referências.



URDUME. E você já voltou decidida a trabalhar com a técnica no Brasil?

Jéssica Costa. Eu voltei e pensei como eu gostaria de ter tido esse tipo de informação e formação na minha época de estudante, e reparei que nas faculdades de moda de lá o aluno está sempre muito ligado ao fazer, eles tem Knit labs [laboratórios de tricô] como todo o ferramental, por exemplo. É diferente daqui em que somos estimulados a desenhar, mas não colocamos a mão na massa, não sabemos como funcionam os materiais. Quando eu voltei também quis visitar Monte Sião (MG) [considerada a capital do tricô] porque queria conhecer como se dava esse processo de criação de malharia aqui no Brasil. Os italianos imigraram para aquela região foram os grandes responsáveis por trazer a máquina de tricô doméstica para cá e popularizar o nome Lanofix no Brasil. Lá a profissão de programador é muito cobiçada, já que hoje em dia eles usam máquinas digitais e de produção acelerada, e isso me fez perceber também a lacuna que existe entre o designer e o programador, um não entende do sistema e o outro de peças. É quase um “telefone sem fio” que dá margem a um dos nosso grandes problemas, a cópia e a repetição. Quando você não tem recursos, você reproduz o que já existe. Foi aí que pensei que o conhecimento que adquiri poderia ser útil, porque o que você aprende na máquina doméstica pode ser utilizado para o trabalho manual, mas também em escala industrial. Me tornei então algo que nunca havia imaginado, virei professora.


URDUME. E como é dar aula de uma técnica que nem todo mundo conhece?

Jéssica Costa. É muito curioso, porque as máquinas de tricô eram muito populares antigamente. Era normal ganhar uma máquina de costura e tricô quando você se casava, por exemplo. Na nossa geração isso acabou se perdendo e a máquina de tricô ficou bem menos popular do que as de costura. Eu dou muita aula para estudantes de moda que não faziam ideia da existência dela antes de saberem dos meus cursos, e até quando eu vou ofertar o curso para outros espaços, como o SESC, é difícil as pessoas entenderem o que é. Isso porque a nossa conexão com máquina hoje em dia é muito diferente, pensamos em algo que funciona sozinho e automatizado, a máquina de tricô doméstica está muito longe disso, apesar de ser uma máquina, o sistema dela é todo mecânico, o que a torna uma máquina manual .

É o meio entre um tear e uma máquina ligada a energia elétrica. elas vieram com o objetivo de atender a demanda de fazer peças em casa, são diferentes das máquinas indústrias, ela até fecha como uma maletinha, então a ideia era que fosse algo transportável, que você pudesse levar para qualquer lugar.




URDUME. Nós ainda encontramos máquinas como essa para vender?

Jéssica Costa. Ainda existe uma fabricação de réplicas dessas máquinas na China, no Brasil elas são importadas pela Lanofix, que ainda existe. Mas de modo geral elas são adquiridas de segunda mão. Uma máquina dessas importada não é barata. Aqui no ateliê são todas das década de 1980/90, por isso elas têm esse aspecto meio vintage. A máquina que parece mais moderna, porque tem um painel que funciona de forma parecida com um “Pense Bem” [ brinquedo intitulado como um minicomputador nos anos 1980] tem 31 anos. Eu trouxe do Japão com a ajuda de uma artista têxtil que já conhecia do Instagram, mas com quem tive contato quando estive lá. Ela me ajudou a Hackear a máquina e hoje consigo ligá-la ao computador.



URDUME. É por esse mecanismo que você consegue realizar o seu trabalho com as ondas sonoras? [Jéssica fez uma intervenção artística no Festival A Festa, promovido pelo SESC, em que materializa as ondas sonoras de mulheres através da máquina de tricô]

Jéssica Costa. Sim, há um tempo eu queria me arriscar mais como artista têxtil e essa foi uma oportunidade de conectar o meu fazer manual com uma temática contemporânea tão forte que é o feminismo. A ideia deste trabalho é abordar o conceito das ondas da voz. Pegar vozes femininas, sempre tão abafadas, e eternizá-las a partir do tricô. Com essa máquina é possível fazer isso, captar essas vozes e transformá-las em fios.



URDUME. Qual o futuro do tricô à máquina, ainda tem muita gente fazendo?

Jéssica Costa. É curioso, porque apesar de ser uma técnica muito nichada, existem muitos artistas têxteis utilizando ela pelo mundo. O bom da internet é que ela proporciona esses encontros, e isso faz a gente ver que não somos tão poucos assim. Somos um grande grupo de pessoas, só que espalhados por aí.









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