Texto produzido pelo Instituto

Urdume para Revista Bordados Poéticos

,Sesc/Paraty, em homenagem as mulheres,

suas criações e seus fios.




Mulheres foram e são silenciadas em culturas diversas. Não porque não tenham sido representadas, idealizadas ou imaginadas, mas porque suas narrativas não são ouvidas.


No Brasil, esta herança – somada a uma colonização escravista – deu às mulheres, em especial às mulheres negras, um papel tão fundamental quanto invisibilizado. Excluídas do debate público e apartadas da política, sustentaram o país por meio das atividades de cuidado e usaram suas mãos para construir mudanças, dando forma às suas subjetividades.


Segundo a antropóloga Carla Cristina Garcia,campos da criatividade humana, como a culinária ou as artes manuais têxteis, ficaram por muito tempo ocultos atrás das cortinas do espaço privado. Restritas ao ambiente doméstico, de suas próprias casas ou de onde foram escravizadas ou empregadas, muitas mulheres passaram seus dias trabalhando em “atividades criativas classificadas como inferiores por preconceito sexual, racial ou social”. Atividades essas de cunho laboral e, portanto, que demarcaram a produtividade em três aspectos: fazeres sem duração – em ciclo permanente –, sem relevância histórica e tida como um fenômeno natural, intrínseco ao feminino.


Como afirma Ana Maria Machado em seu texto “O Tao da teia – sobre textos e têxteis”, esse cenário até poderia fazer com que os homens não pudessem negar sua dependência da produtividade feminina, mas marcava sua separação das mulheres, cujos afazeres ficavam restritos aos cuidados domésticos. Conforme a escritora, “a circulação da matéria têxtil criada por mulheres era incentivada, mas a circulação do texto e da palavra da mulher encontrava todos os obstáculos”.


No entanto, se por um lado, a produção têxtil privada foi excludente, por muito tempo ela foi também sinônimo de comunidade e narrativa. Desde a Pré-História, mulheres reuniam-se para tecer e, ao mesmo tempo, significar sua própria cultura, traduzida inicialmente por linguagem e vestimenta.Uma referência dessa ligação ancestral entre o fio da vida e do têxtil, que tece tramas suficientes para sustentar as histórias de um povo, está descrita em uma antiga fábula de Gana, no conto africano de Kwaku Ananse, também conhecido como Anansi, que conta a trajetória de

um lugar que vivia sem passado por não ter histórias registradas. Acreditando ser insuportável viver em um mundo sem enredos, Anansi, o homem-aranha, teceu uma extensa teia de prata a fim de chegar ao dono do céu, Nyame, que possuía essas histórias, e o propósito era libertá-las

para o povo, que, assim, poderia construir e contar suas próprias narrativas.


O ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras


Este título, que é uma frase cunhada pela mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada, Lara Maria Manesco,mostra como os mitos gregos das fiandeiras podem ser metáforas de um discurso feminino em substituição ao seu silenciamento. Como diz Lara, “a iconografia e a literatura deixam visível o vínculo inseparável do feminino e da tecelagem. A história das mulheres é a história do modo como tomam a palavra”. E Lara ainda vai além: afirma que os mitos e os contos modernos que se utilizam da mesma narrativa que os antigos – como A moça tecelã, de Marina Colasanti - articulam-se “em forma de teia para criar uma cadeia de vínculos mútuos e não hierárquicos”. Ou seja, um diálogo de narrativas formado pelos entrecruzamentos de fios e enredos, circularidade e oscilação entre vazios e preenchimentos.


A teórica destaca também a ideia do tecer como sinônimo de criação. “O fuso, ao transformar matéria vegetal ou animal em tecido, resgata a transformação do pensamento amorfo em palavra, bordada linha a linha no papel.”


Em seu livro “Casaco de Marx”, o professor de literatura Peter Stallybrass reconstrói o valor monetário que o têxtil tinha até o início da Revolução Industrial. “O valor altíssimo dos têxteis, que

durou até o início da manufatura de algodão barato, explica o zelo extraordinário com o qual eles eram listados no testamento do início do período moderno.” As roupas eram conservadas, os corpos que as habitavam é que mudavam.


Do valor monetário atribuído ao têxtil derivaram-se palavras como “fazenda”, com o sentido aproximado de tecido e relativa a um conjunto de bens, e “renda” e “rendimento”, ligadas aos preciosos trabalhos feitos com fios finos pelas mãos das mulheres, como a renda e o bordado. No

entanto, como é sabido, dificilmente esse valor era retornado para quem o produzia.


Ainda assim, mesmo marginalizados,os fazeres têxteis manuais nunca perderam sua potência narrativa e transformadora. Muitas mulheres, sem possibilidade de discurso, contaram suas histórias e garantiram seu sustento pelas linhas. Esse é o caso da artista Harriet Powers, mulher afro-americana da região rural da Geórgia, que foi escravizada e usava a técnica de emenda

de retalhos para registrar lendas locais, cenas cotidianas da escravidão, sonhos de liberdade e histórias bíblicas, criando, assim,simbolismo e iconografia únicos.


Ancestralidade: a costura e a escrita afro-brasileira


No Brasil não foi diferente. O ato de costurar era uma atividade comum às mulheres durante todo o século XIX, aprendizado que fazia parte da educação das meninas desde a infância. Porém, enquanto entre as famílias mais abastadas a prática têxtil era um hobby, nas menos privilegiadas, as mães precisavam dominar esse conhecimento e se desdobrar para conseguir dar conta de um sem-número de remendos, recosturas e transformações em suas próprias casas ou trabalhando como costureiras para outras famílias.


A figura da costureira era frequente nas casas da elite brasileira, ao lado de outros empregados. Responsável por costurar, lavar e cuidar das roupas da família, a costureira, geralmente, era uma pessoa escravizada doméstica. Essa herança perpetuou-se no decorrer do século XX, em que

mulheres negras eram consideradas predestinadas a determinadas profissões, especialmente as que envolviam o trabalho doméstico ou o cuidado com as crianças.


Contudo, pensar em costura, bordados e trabalhos com fios e agulhas, também é falar sobre uma forma de comunicação. Enquanto na imagem da costureira o movimento da agulha e da linha perpassa o tecido, na da escritora são a caneta e a folha que fazem esse papel. “Texto” vem do latim textum, que significa tecido, entrelaçamento. É, então, o resultado de uma combinação per

feita de uma espécie de fios, no caso, as orações, e o resultado - a costura – o texto propriamente dito. A inevitável conexão entre os fazeres manuais da escrita e das agulhas está presente não somente no conceito teórico, mas também na história de muitas famílias, cujas mães e avós costureiras e bordadeiras transmitiram para as descendentes a liberdade de criar textos.


Esse é o enredo de vida de muitas mulheres que hoje escrevem graças a um caminho previamente trilhado por quem veio antes delas. O movimento de pinça com a ponta dos dedos serve ora para segurar a agulha, ora para empunhar a caneta e, assim, entrelaçar palavras para criar nar

rativas textuais. Tais histórias narradas, que são decodificadas por meio da junção de letras, outrora eram contadas oralmente enquanto se fiava ou tecia, como lembra Walter Benjamin: “Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve uma histó

ria. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo de trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira, que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo. E assim essa rede se desfaz hoje em todas as pontas, depois de ter sido tecida, há milênios, em torno das mais antigas formas de trabalho manual (...). A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio artesão – no campo, no mar e na cidade – é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação”.


Assim, ouvir as mães cantarem enquanto teciam, conviver em espaços de costura ou brincar com pedaços de tecido – e ter aí um primeiro contato com as narrativas têxteis – serviu como propulsor

para muitas escritoras e escritores negros da atualidade terem a oportunidade de se expressar por meio das palavras impressas.


Sueli Carneiro


A mais velha dos sete filhos de uma costureira, Sueli Carneiro (1950) é referência na construção do pensamento feminista negro no Brasil e na militância de raça e gênero. A compreensão sobre

a desigualdade e sobre as diferenças de oportunidades, ela teve, ainda pequena, quando entrou na escola – espaço que costuma ser o primeiro onde o racismo fica explícito e se apresenta de forma mais estruturada. Uma das versões de Sueli, então, que foi a da criança ferida,se transformou em muitas versões de Sueli como mulher adulta. Uma delas é a mulher politizada, que encara a militância antirracista como um ideal.


Também com esse propósito em mente, Sueli virou escritora, filósofa, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e atua nos movimentos feministas e nos movimento negros no Brasil e pelo mundo afora. Além de ser uma figura importante para a implanta ção do sistema de cotas nas universidades brasileiras, Sueli é fundadora e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo, que, por meio do Portal Geledés, expressa publicamente as ações feitas pela organização.


Lena Martins


A filósofa e ativista, que é mãe de Luanda, sabe da importância da continuidade dos movimentos para melhorar a realidade de vida de muitas pessoas, por isso também é generosa ao compartilhar o conhecimento com as mulheres mais jovens. Lena Martins (1950), a criadora das

bonecas Abayomi, também teve a mãe como inspiração, que era costureira em uma confecção em São Luiz (MA), onde nasceu. O galpão em que ficavam as máquinas de costura foi o universo onde Lena viveu até os 8 anos, quando usava as sobras de tecido para brincar. Essa vivência acabou influenciando seu caminho como artesã, mais precisamente desenvolvendo as bonecas de tecido negro, feitas sem cola, sem costura e sem estrutura interna – utilizando apenas nós, dobra-

duras e cortes.


Mesmo criadas por Lena na década de 1980, existem muitas versões falsas sobre o surgimento das bonecas Abayomi. A mais famosa afirma que as mães a faziam para os seus filhos nos navios negreiros, utilizando retalhos de roupas. Essa distorção histórica revela a tentativa de não reconhecer a história e a cultura negra como parte integrante da cultura brasileira.


Além de ativista e artesã, Lena também enveredou pelo campo literário, em que deixou fluir a sua vertente escritora. O livro infantil Vida que voa, lançado em 2011, conta sobre as sabedorias compartilhadas entre avó e neta e é ilustrado com as bonecas Abayomi.


Abdias Nascimento

As questões envolvendo a mulher negra e a luta antirracista foram compreendidas desde cedo por Abdias Nascimento (1914-2011), nascido em Franca, interior de São Paulo. A mãe, costureira e cozinheira, também era contratada como ama de leite por famílias abastadas, imagem que impactou fortemente a vida do filho.


E essa vivência, assim como outras, o fez desejar a libertação da população negra. Formado em Economia, Abdias foi um intelectual que mesclou a carreira artística, acadêmica e política – destacou-se como escritor, poeta, dramaturgo,ator, pintor, ensaísta, teórico, professor e político. Mesmo com vasta obra, seu nome ainda não estampa a lista de referências na academia brasileira justamente porque seus pensamentos aborda questões essenciais para a plena cidadania do povo negro e, em muitos ambientes, ainda se trata de um assunto que não

interessa ser tocado.


A capacidade de atuar em diversas frentes é resultado, em parte, de sua formação, que conta com a participação ativa em movimentos sociais, e em parte pelo que carrega dos ensinamentos familiares, que lhe deram força e autoconfiança para não baixar a cabeça diante de uma socie-dade racista. A mãe ensinou a ele e aos seis irmãos a lutar contra as injustiças, e ela mesma era o exemplo. Lutava e resistia diante das dificuldades da vida, lição que deixou como legado para os filhos.


A família, que era muito pobre, sofreu na pele os resquícios da escravidão, extinta, legalmente, em 1888. Porém, como não veio seguida de políticas públicas para a colocação de pessoas negras no mercado de trabalho, deixou muitas sem expectativas. A própria avó de Abdias foi escravizada. A mãe, quando percorria as fazendas em busca de trabalho, encontrava muitas

pessoas que haviam sido escravizadas. E esses fatos o marcaram profundamente. A memória de Abdias, assim como acontece ainda hoje com a população negra, representa um grande esforço para solucionar uma série de dificuldades.


Entrelaçada ao manual e à realidade, a criação literária traz à tona uma forma de expressão criada pelas mulheres e compartilhada com todos aqueles que foram subvalorizados ou oprimidos. Um conhecimento da experiência, que põe em xeque o poder racional, teórico e patriarcal do eurocentrismo ocidental. Por isso, narrar e escrever, jogando luz sobre a composição de fios, gestos e letras que tramam a vida, é resgatar raízes e dar voz aos antepassados que não foram valorizados em seus fazeres.


Reconhecer a linha da narrativa que atravessa o corpo é, como descreve a personagem Belonísia, do livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, desenrolar as ideias na cabeça como um novelo de malha de apanhar peixe. “Quando sento quieta pra costurar uma roupa velha ou levanto a

enxada para devolvê-la de novo no chão, (...), é que esse fio, que tem sido meu pensa-

mento, vai se fazendo trama.”


referências:

Costureiras, mucamas, lavadeiras e vendedoras: O trabalho feminino

no século XIX e o cuidado com as roupas (Rio de Janeiro, 1850-1920)

https://www.redalyc.org/jatsRepo/

381/38159160008/html/index.html

Sueli Carneiro: filósofa, educadora

e porta-voz de uma geração

https://almapreta.com/editorias/


o-quilombo/sueli-carneiro-filosofa-educadora-

e-porta-voz-de-uma-geracao


O pensamento de Abdias Nascimento

e a luta contra o racismo

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/


direitos-humanos/o-pensamento-de-abdias-

nascimento-e-luta-contra-o-racismo-1


Manesco, L. Para além de Penélope: a tessitura mítica e intertextual

em contos da literatura brasileira, USP, 2017



Stallybrass, P. O Casaco de Marx: Roupas, Memória, Dor. Editora

Autêntica (2004)

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Das teorias de seu surgimento aos primeiros registros em livretos, descubra de que maneira o crochê começou a desenhar suas marcas na moda -

por Cyntia Rêgo


O crochê é uma arte que envolve muito mais do que linhas, agulhas, gráficos, pontos e a peça final. É a união de conhecimento passado de geração em geração somado a técnicas e ferramentas, o que o leva ao pertencimento a uma cultura, a um povo. Até este momento sua origem é indefinida - e não por falta de tentativas em encontrar essa resposta. Muitos estudiosos, com o passar do tempo, dedicaram-se a decifrar esse enigma, mas o que temos ainda são

sussurros de um conto - quase fábula - remetendo aos Irmãos Grimm.


A especialista Annie Potter, por exemplo, relata que em 1916 o antropólogo Walter Edmund Roth visitou descendentes dos indígenas da Guiana e encontrou exemplos do que poderia ser o “verdadeiro crochê”. Já Lis Paludan, escritora e pesquisadora, apresenta três teorias: a primeira sugere que o crochê originouse na Arábia, indo até o Tibete (ao leste) e à Espanha (a oeste), de onde seguiu as rotas comerciais árabes para outros países do Mediterrâneo.


A segunda teoria defende que a evidência mais antiga do crochê veio da América do Sul, onde dizia-se que uma tribo primitiva usava adornos crochetados em ritos de puberdade. Por fim, a terceira conta que na China os primeiros registros da prática eram conhecidos de bonecas

tridimensionais trabalhadas em crochê.


Conhecimento passado de mão em mão

Para além das teorias, a história mostra que muitas foram as maneiras de divulgação do crochê, antes mesmo do surgimento dos padrões escritos. As amostras e aplicações dos pontos eram feitas e depois costuradas em tecidos - como se fossem as páginas de um livro - e encadernadas como álbuns. Estes álbuns, que continham as amostras, eram emprestado de pessoa a pessoa para que todos pudessem aprender e fazer aquele determinado ponto.


Em meados de 1800 surgiram os primeiros livretos de crochê, que continham ilustrações em xilogravura da peça a ser aprendida. Eles traziam padrões de golas, adornos de cabeça, xales, punhos, rendas, bolsas e chinelos. E também compartilhavam dicas de materiais recomendados para a confecção das peças em crochê, sempre na cor branca.


Duas décadas depois, em 1824, foram impressos os primeiros padrões de crochê. Sendo que algumas publicações tiveram papel importante nessa divulgação, como a revista Penélope, na Irlanda (1824 e 1849) e a revista Modern Pricilla, nos Estados Unidos (1887-1930), esta possuía apenas 16 páginas e trazia assuntos relacionados ao mundo feminino. Mesmo

com a imprecisão desses primeiros padrões, houve uma euforia generalizada com possibilidades de novidades a serem aprendidas.


O crochê como resgate de oportunidade

Entre os anos de 1845 a 1849, a Irlanda enfrentou um período chamado de A Grande Fome (ou Fome das Batatas). Foram anos marcados por doenças e imigração, em que população daquele país foi reduzida entre 20 e 25%. Diante desse contexto, os trabalhadores irlandeses, ou seja, homens, mulheres e crianças, foram organizados para aprender o crochê.


Escolas também passaram a ensinar a habilidade aos professores, que foram enviados a todo país, mostrando aos trabalhadores como criarem seus próprios padrões. Como resultado desta nova habilidade, as famílias passaram a contar com esses novos ganhos, o que lhes dava a chance de economizar o suficiente para emigrar e começar uma vida no exterior, especialmente na Inglaterra, levando a este novo lugar as habilidades no crochê.


A rainha Vitória, inclusive, era uma exímia tricoteira e esforçou-se para aprender a técnica, tornando-a mais elegante quando comparada às rendas de crochê criadas pelos irlandeses. Elas eram muito usadas pelos nobres e pelos religiosos, e em quase todas as vestes, na cor branca, simbolizando pureza e superioridade. Em sua velhice, a rainha Vitória ainda confeccionou

oito cachecóis e lenços para presentear soldados veteranos da Guerra da África do Sul (1899–1902).


E o que fica para o futuro?

Após esse emblemático “nascimento”, o crochê foi se desenvolvendo e percorrendo mundos e culturas onde adquiriu características específicas. Foi, novamente, alternativa importante em períodos de guerra e escassez, como no início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) em que as mulheres reformaram as próprias roupas e precisaram usar tecidos alternativos.


E surgiu também com força na decoração da casa nos anos 50 - nas famosas toalhinhas de crochê. Até os anos 60, mantinha o estilo clássico adquirido com o crochê irlandês, sustentando as características de trabalhos realizados com fio e agulhas finas. Mas a partir dos anos 60, ele foi mudando consideravelmente e adaptando-se às necessidades das épocas. Na década de 70, por exemplo, sob a influência da cultura hippie, o granny square atingiu seu auge: o quadradinho da vovó aparecia em mantas, xales, vestuário, bolsas e na decoração das casas, ditando moda até hoje.


Com as redes sociais, o crochê ganhou maior visibilidade difundindo, assim, as manualidades

de maneira surpreendente. O grande número de compartilhamento da técnica fez com que mais

jovens se interessassem por essa arte tão antiga. E, se alguém pensava que o futuro iria massacrar e extinguir o feito à mão, o cenário é outro: revitalização e valorização do manual, de tudo que é pessoal, do que demanda tempo para ser feito, do exclusivo e individual. O crochê acompanhou todas as transformações da História e se fortalece a cada dia. O que o futuro, reserva, portanto, parece ser uma mescla entre o artesanal, o industrial e o virtual.

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Atualizado: 24 de fev.

Conexões etnobotânicas para uma relação ressignificada com materiais vegetais - por Eduarda Bastian


Ilustração: Sophie Lecuyer


Em tempos modernos, é seguro afirmar que a tecnologia nos trouxe sim inovações relevantes para o nosso desenvolvimento como sociedade. No entanto, essa mesma tecnologia levou à perda de conexões importantes que acabaram por ser esquecidas, deixadas para trás.


Diversos autores afirmam que muitos dos problemas ambientais que enfrentamos atualmente se dão por conta da nossa desconexão com o mundo natural, com a Natureza em sua essência. Frequentemente esquecemos que coexistimos com uma abundância enorme de outros seres vivos, que fazem parte da história do mundo desde antes da humanidade. Joanna Macy, escritora, ativista e professora americana focada nas áreas de ecologia e filosofia, ressalta: “A crise que ameaça nosso planeta deriva de uma noção disfuncional e patológica do eu. Deriva de um erro sobre nosso lugar na ordem das coisas. É uma ilusão de que o eu seja tão separado e frágil que devemos delinear e defender seus limites; que é tão pequeno e tão carente que devemos adquirir e consumir infinitamente, e que é tão distante que, como indivíduos, corporações, estados-nação ou espécies, podemos ser imunes ao que fazemos a outros seres.” Quantas vezes reduzimos seres como as plantas, por exemplo, à meras fontes de matéria-prima?


Ciências como a etnobotânica permitem que seja aprofundada a história e o significado cultural de plantas utilizadas pelos seres humanos. Nos oferece a oportunidade de vermos com novos olhos o ser por trás da matéria, o papel e o significado das interações entre plantas e os seres humanos. Tendo em vista o extenso uso de algumas plantas para a extração de fibras vegetais para aplicações têxteis, a etnobotânica acaba trazendo a oportunidade de nos conectarmos mais intimamente com os materiais vegetais utilizados para vestuário, e, consequentemente, com a vestimenta em si.


No universo da indústria têxtil, frequentemente não sabemos de que material são feitas as nossas roupas, tampouco qual a história dessa planta além de seu papel como matéria-prima. O foco é quase que inteiramente na questão estética, no apego material e na ilusão de felicidade que o consumismo muitas vezes proporciona. Muito ouvimos falar de como a indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. Grande parte dessa poluição vem da extração e beneficiamento da matéria-prima, o que piora drasticamente com a quantidade absurda de produtos fabricados, principalmente em modelos de fast-fashion.


Neste contexto, podemos olhar para o passado em busca de soluções para o futuro - de que maneira os seres humanos se relacionavam com o têxtil e com as fibras utilizadas? Antes do fiar e do tear automático, só existia o manual. Antes da invenção das fibras sintéticas, só existiam as naturais - extraídas de plantas locais e animais. E junto com tudo isso, um relacionamento muito mais íntimo e respeitoso com tudo que é Natural. As fibras vegetais, por exemplo, não eram meras matérias-primas para a fabricação de produtos. Possuíam valor muitas vezes sagrado para a comunidade, tanto a planta em si quanto a fibra a ser extraída da própria. E é este estudo etnobotânico que nos auxilia a criar uma conexão mais pessoal e local com a fibra a ser utilizada. Tal relacionamento, mais íntimo e incorporado, acaba fazendo com que tenhamos maior consciência ambiental e social da utilização de tais recursos naturais.


Para alguns, tal prática de relacionamento é essencial e ancestral. Diversas comunidades indígenas ao redor do mundo relacionam rituais religiosos e espirituais com a utilização de fibras vegetais. No momento da colheita e da extração da fibra, as orações de agradecimento à Mãe Natureza fazem parte dos costumes. Povos originários cultivam desde sempre uma ligação com os outros seres que o mundo moderno já não conhece mais. Em vilarejos reclusos de países como a Romênia, onde tradições ancestrais são firmemente mantidas até os dias atuais, as fibras de cânhamo são vistas pelos camponeses como protetoras, sagradas e purificadoras. Peças de vestuário confeccionadas para fins de proteção seriam sempre feitas com fibras de cânhamo, tamanha a relevância cultural e espiritual da planta. Muitas destas culturas respeitam a fundo os ciclos naturais, aceitando o tempo de entrega da Natureza. Tais conhecimentos ancestrais, históricos e tradicionais se conectam diretamente com a ciência da etnobotânica.


Em suma, a pesquisa etnobotânica idealmente estaria intrinsecamente conectada com a utilização de fibras vegetais para qualquer aplicação – especialmente para fins têxteis. Escalar a extração de matérias-primas vegetais a níveis industriais sem pesquisar conteúdos culturais e históricos sobre a planta a ser utilizada acaba ofuscando a importância deste reconhecimento e reconexão para a preservação de recursos naturais e o desenvolvimento sustentável. Ver o ser por trás do material, se deslumbrar com a fascinante e antiquíssima história do relacionamento das plantas com os seres humanos e perceber que é possível vivermos em simbiose com os seres com os quais dividimos o planeta - tudo isso é um convite para uma reconexão que atualmente se torna imensamente necessária para alcançarmos a sustentabilidade que tanto almejamos.



Sobre a autora: Eduarda Bastian é pesquisadora na área de fibras vegetais e educadora na rede SENAI de Santa Catarina. Através dos meus textos e pesquisas, busca sensibilizar as pessoas sobre o poder de uma relação nutrida e simbiótica com a Natureza, bem como disseminar o importante papel que o conhecimento ancestral pode ter na nossa busca pela sustentabilidade.

@eduardabastian



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