O ser por trás da matéria:

Atualizado: 24 de fev.

Conexões etnobotânicas para uma relação ressignificada com materiais vegetais - por Eduarda Bastian


Ilustração: Sophie Lecuyer


Em tempos modernos, é seguro afirmar que a tecnologia nos trouxe sim inovações relevantes para o nosso desenvolvimento como sociedade. No entanto, essa mesma tecnologia levou à perda de conexões importantes que acabaram por ser esquecidas, deixadas para trás.


Diversos autores afirmam que muitos dos problemas ambientais que enfrentamos atualmente se dão por conta da nossa desconexão com o mundo natural, com a Natureza em sua essência. Frequentemente esquecemos que coexistimos com uma abundância enorme de outros seres vivos, que fazem parte da história do mundo desde antes da humanidade. Joanna Macy, escritora, ativista e professora americana focada nas áreas de ecologia e filosofia, ressalta: “A crise que ameaça nosso planeta deriva de uma noção disfuncional e patológica do eu. Deriva de um erro sobre nosso lugar na ordem das coisas. É uma ilusão de que o eu seja tão separado e frágil que devemos delinear e defender seus limites; que é tão pequeno e tão carente que devemos adquirir e consumir infinitamente, e que é tão distante que, como indivíduos, corporações, estados-nação ou espécies, podemos ser imunes ao que fazemos a outros seres.” Quantas vezes reduzimos seres como as plantas, por exemplo, à meras fontes de matéria-prima?


Ciências como a etnobotânica permitem que seja aprofundada a história e o significado cultural de plantas utilizadas pelos seres humanos. Nos oferece a oportunidade de vermos com novos olhos o ser por trás da matéria, o papel e o significado das interações entre plantas e os seres humanos. Tendo em vista o extenso uso de algumas plantas para a extração de fibras vegetais para aplicações têxteis, a etnobotânica acaba trazendo a oportunidade de nos conectarmos mais intimamente com os materiais vegetais utilizados para vestuário, e, consequentemente, com a vestimenta em si.


No universo da indústria têxtil, frequentemente não sabemos de que material são feitas as nossas roupas, tampouco qual a história dessa planta além de seu papel como matéria-prima. O foco é quase que inteiramente na questão estética, no apego material e na ilusão de felicidade que o consumismo muitas vezes proporciona. Muito ouvimos falar de como a indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. Grande parte dessa poluição vem da extração e beneficiamento da matéria-prima, o que piora drasticamente com a quantidade absurda de produtos fabricados, principalmente em modelos de fast-fashion.


Neste contexto, podemos olhar para o passado em busca de soluções para o futuro - de que maneira os seres humanos se relacionavam com o têxtil e com as fibras utilizadas? Antes do fiar e do tear automático, só existia o manual. Antes da invenção das fibras sintéticas, só existiam as naturais - extraídas de plantas locais e animais. E junto com tudo isso, um relacionamento muito mais íntimo e respeitoso com tudo que é Natural. As fibras vegetais, por exemplo, não eram meras matérias-primas para a fabricação de produtos. Possuíam valor muitas vezes sagrado para a comunidade, tanto a planta em si quanto a fibra a ser extraída da própria. E é este estudo etnobotânico que nos auxilia a criar uma conexão mais pessoal e local com a fibra a ser utilizada. Tal relacionamento, mais íntimo e incorporado, acaba fazendo com que tenhamos maior consciência ambiental e social da utilização de tais recursos naturais.


Para alguns, tal prática de relacionamento é essencial e ancestral. Diversas comunidades indígenas ao redor do mundo relacionam rituais religiosos e espirituais com a utilização de fibras vegetais. No momento da colheita e da extração da fibra, as orações de agradecimento à Mãe Natureza fazem parte dos costumes. Povos originários cultivam desde sempre uma ligação com os outros seres que o mundo moderno já não conhece mais. Em vilarejos reclusos de países como a Romênia, onde tradições ancestrais são firmemente mantidas até os dias atuais, as fibras de cânhamo são vistas pelos camponeses como protetoras, sagradas e purificadoras. Peças de vestuário confeccionadas para fins de proteção seriam sempre feitas com fibras de cânhamo, tamanha a relevância cultural e espiritual da planta. Muitas destas culturas respeitam a fundo os ciclos naturais, aceitando o tempo de entrega da Natureza. Tais conhecimentos ancestrais, históricos e tradicionais se conectam diretamente com a ciência da etnobotânica.


Em suma, a pesquisa etnobotânica idealmente estaria intrinsecamente conectada com a utilização de fibras vegetais para qualquer aplicação – especialmente para fins têxteis. Escalar a extração de matérias-primas vegetais a níveis industriais sem pesquisar conteúdos culturais e históricos sobre a planta a ser utilizada acaba ofuscando a importância deste reconhecimento e reconexão para a preservação de recursos naturais e o desenvolvimento sustentável. Ver o ser por trás do material, se deslumbrar com a fascinante e antiquíssima história do relacionamento das plantas com os seres humanos e perceber que é possível vivermos em simbiose com os seres com os quais dividimos o planeta - tudo isso é um convite para uma reconexão que atualmente se torna imensamente necessária para alcançarmos a sustentabilidade que tanto almejamos.



Sobre a autora: Eduarda Bastian é pesquisadora na área de fibras vegetais e educadora na rede SENAI de Santa Catarina. Através dos meus textos e pesquisas, busca sensibilizar as pessoas sobre o poder de uma relação nutrida e simbiótica com a Natureza, bem como disseminar o importante papel que o conhecimento ancestral pode ter na nossa busca pela sustentabilidade.

@eduardabastian



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