O que é essa arte têxtil contemporânea brasileira?

Herdamos um legado desde que a humanidade precisou começar a se proteger e se aquecer. Fazemos isso de maneiras diferentes a cada adaptação geográfica. E, embora não sejamos obrigados a reportar o que é de nosso meio (pois, como artistas, geramos ressignificados), temos a oportunidade e o privilégio de conhecer profundamente o que é desconhecido em outras localidades, afinal somos nós que trazemos as marcas de nosso lugar. Diante disso, pergunto-me sobre como temos devolvido isso à sociedade e à história? Como temos devolvido a nós mesmos o que somos e sobre o que acreditamos?


Temos uma produção decorrente de todas as culturas que nos tocaram e nos influenciaram e, por muitas vezes isso ocorreu de forma espontânea, no recôndito dos lares, nos ensinamentos deixados no contexto familiar pelas matriarcas. Mulheres nos deixaram técnicas, ensinamentos, cuidados, perspectivas de vida. Por meio da linha e das técnicas tradicionais dominadas por aquelas que cuidavam de seus lares, houve a valorização da atuação e da expressão feminina a nos contar histórias (e não somente a repetir padrões). Essas histórias estão em nós. E da mesma forma, nas artes visuais.


A partir de 1990, os aprendizados caseiros tomaram uma efervescência que transbordou nas obras de artistas representativos da “Geração Noventa”, segundo Kátia Canton em sua obra “Novíssima Arte Brasileira”, de 2001 (Editora Iluminuras). A produção de mulheres (em sua maioria) foi composta em bordados, costuras, tramas, alinhavos que tomaram uma nova proporção, em obras que não tratavam mais, simplesmente de um segmento da arte europeia e erudita. A arte brasileira, complexa, interpreta suas diferentes partes, encontra seus fios e conta novas histórias, histórias de si e de como se encontra no outro, tomando-se como referência , passando a não ignorar seus suportes, de onde nascem seus pontos, de quais panos eles emergem, de onde vêm as vozes que lhes ensinaram.


Nesse resgate, posterior ao boom ocorrido na tapeçaria entre as décadas de 1970 e 90, com as Bienais de Lausanne, os fios passaram a estar integrados a ações como desfazer, desfiar, rasgar ao utilizarem pedras, lâminas, fotografias. Dentro da arte contemporânea houve a descontextualização dos fazeres tradicionais, gerando-se assim uma ressignificação no deslocamento da função utilitária dessas tradições para o campo da contemplação e da reflexão, características do universo das artes visuais que vieram a configurar a inserção das tramas que vemos hoje.


Dentro do contexto apresentado, observa-se que a mulher continua a ser presença majoritária, o que pode ser confirmado nas muitas exposições tanto no exterior quanto no Brasil atualmente. Embora o mercado de arte seja ainda masculino, a produção que alguns acadêmicos ainda sequer reconhecem como “arte têxtil”, aflora a tradição artesanal representativa da ação feminina.

Inúmeras bienais proliferaram-se acima da linha do Equador entre meados do século XX até os dias atuais, enfatizando a arte têxtil contemporânea. As grandes exposições desde as Bienais de Lausanne estão nessa faixa, assim como a grande maioria representativa dos artistas que expuseram nessas mostras. As grandes exposições de arte têxtil estão concentradas no hemisfério norte e as poéticas estão muito relacionadas às técnicas, tradições e psicogeografia dos países localizados na região. Hoje, com o período de pandemia e isolamento social, observamos o surgimento de muitos eventos nas redes sociais, mas, com exceção das Bienais da World Textile Art Organization, quase não temos mostras oficiais de arte têxtil na América Latina.


No Brasil, há muito sendo gerado, mas não precisamos reproduzir o que ocorre fora. As produções mais ricas, mesmo quando influenciadas por estrangeiros, têm algo a dizer sobre o que temos e o que somos. Temos uma tradição têxtil visualizada nas artes aplicadas e a arte contemporânea não ignora isso. Podemos avançar e mergulhos mais intensos, mas igualmente precisamos pensar sobre o que temos a dizer. Há 27 anos comecei a refletir sobre isso.


Teremos respostas nos que permanecerem ao período da “moda têxtil atual” na arte. Temos um período flamejante a esse respeito, mas o que não é resistente se esvai como fagulhas. Daqui a um tempo veremos o que foi apurado e esse é um trabalho lento, específico e cuidadoso. Aliás, acrescento que para ele não basta ter receitas. É preciso paciência, tempo e, principalmente, deslumbramento diante do que é singular.

“Revisitando legado”, Joedy Marins. 2010. Fotografia digital (Fonte: Acervo da artista)

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