O CROCHÊ MODERNO DE MOLLA MILLS

Com formação em Belas Artes e cinco livros lançados, a designer que revolucionou o crochê diz enxergar artes manuais como estilo de vida para manter o equilíbrio e exercer a cidadania


Por Cristine Bartchewsky e Heloisa Selles - entrevista publicada na Revista Urdume #03


crédito: divulgação Molla Mills

Certa vez, quando conversávamos em sua primeira visita ao Brasil, a finlandesa Molla Mills comentou que, enquanto fazia crochê sozinha em sua casa em Kurikka (cidade com vinte mil habitantes situada há quatro horas da capital, Helsinque), nunca imaginou ser popular em tantos lugares do mundo.


Molla nasceu em uma família e uma cultura nas quais ser artífice faz parte do cotidiano. Entre outras técnicas presentes em seu dia a dia, o crochê sempre foi a favorita e compreendida também como atividade terapêutica e de manifesto.


Apesar disso, ou talvez justamente pelo fato de o crochê estar tão integrado à sua vida, somente ao fim de dez anos de estudos ela se deu conta de que poderia aliar essa prática aparentemente comum à experiência acadêmica.


Aluna rebelde, ligada a movimentos de vanguarda que fizeram parte de sua formação na juventude, reuniu o conhecimento em design a um repertório peculiar em seu trabalho de conclusão de curso. O que resultou na publicação de seu primeiro livro - Virkkuri (ed. Nemo, 2013) no Brasil, traduzido Crochê Moderno (ed. GG Brasil - Gustavo Gilli, 2017) –, responsável pela revitalização dessa arte ancestral que parecia congelada há décadas.

Esse feito parece ter dividido a linha do tempo da história do crochê entre antes e depois de Molla Mills. Mais que isso, ao expressar sua subjetividade por meio do fazer manual e materializar seu estilo de modo autêntico – ao invés de apenas reproduzir a técnica –, Molla, sem dúvidas, encoraja a comunidade artesanal a refletir sobre seu papel e formas disruptivas de atuar.

A designer contou mais à Urdume sobre suas inspirações, aspirações e sobre o fazer manual como resistência e um mundo que avança cada vez mais para o virtual.


URDUME. Crescida em uma família que respirava a cultura do DIY, envolvida em costura, carpintaria, bordado, o que você acha que a atraiu para o crochê, dentre todas as artes manuais?

Molla Mills: O crochê sempre foi o tipo de arte feita a partir das sobras de fios e outros materiais reciclados. Não tem o mesmo valor que, por exemplo, o tricô e a tecelagem possuem. Talvez essa seja a razão pela qual eu quis focar na cultura do crochê - para ser bem sincera, eu amo tanto crochetar que eu queria escrever livros sobre isso. Cresci em uma família de pessoas que faziam tudo elas mesmas e isso teve um enorme impacto em mim. Adorava experimentar materiais diferentes. Hoje só faço crochê, mas espero ter mais tempo para aprender novas técnicas em breve. Cestaria é uma arte que eu adoraria aprender. Antes disso, no entanto, tenho muito o que fazer com crochê. Todo mundo conhece os “granny squares” [os famosos quadradinhos de crochê, também conhecidos como quadradinhos da vovó no Brasil], mas eu gostaria de renovar este conceito, criar uma nova imagem quando as pessoas pensam sobre crochê.


URDUME. Você mencionou, certa vez, que o livro Crochê Moderno é o resultado do trabalho de conclusão de curso para a universidade. Pode nos contar mais sobre isso?

Molla. Foi o meu projeto final de quando eu estudava arte [Molla tem um mestrado em Belas-Artes]. Queria juntar todos os dez anos de estudos criativos e fazer algo com eles. Levei alguns meses para realmente descobrir o que seria, então um dos meus professores me disse que eu poderia fazer algo maior com crochê. Ele sempre me via fazendo crochê durante as aulas e me fez perceber que era o que eu fazia de melhor. Então comecei a fazer um livro. Encontrei um editor, meu amigo me indicou à Nemo, minha editora na Finlândia, fizemos um contrato e, finalmente, publicamos cinco livros. Me sinto muito sortuda de ter encontrado uma editora. Levei um ano e meio para terminar o primeiro livro, os outros levaram um pouco menos.

URDUME: O crochê parece ter, em sua natureza, um apelo um tanto barroco, com babados, curvas, floreios. Seu trabalho, uma combinação de ideias simples, inovadoras e funcionais, traz uma nova roupagem a essa arte. Assim como o design finlandês, conhecido por suas combinações de cores e padrões gráficos marcantes, suas peças tem uma “assinatura Molla”. Como você relaciona o seu trabalho com crochê e a sua experiência acadêmica com design?

Molla. O crochê tem mesmo muitos estilos e padrões diferentes - ele pode ser artístico, pode servir para objetos de decoração, pode ser algo prático para você usar. Minha ideia era fazer algo que você pudesse carregar, como uma bolsa. Amo bolsas, sou a senhora das bolsas, e todos os meu livros estão cheios de padrões para bolsas de crochê. A ideia de fazer apenas padrões práticos vem dos meus estudos de moda, e a aparência geométrica dos meus trabalhos vem dos meus estudos em design industrial. Eu era uma aluna um pouco rebelde, não participava de trabalhos em grupo ou trabalhos de design contratados por empresas, eu sempre fazia algo sozinha. Quando eu era mais nova, passei por muitos estilos diferentes, punk, gótico, vintage, e essa mistura de décadas e estilos sempre me inspirou. No entanto, a maioria dos meus trabalhos em crochê é geométrica e atemporal, com desenhos que se encaixam com basicamente qualquer estilo que você possa ter. Apesar de não ser um design tipicamente finlandês, muitas vezes ouço falar que os meu padrões tem algo de escandinavo. Talvez eu tenha que acreditar nisso, apesar de sempre querer manter as portas abertas, evitando categorização.


URDUME. O que o lançamento do livro Crochê Moderno (em tantos países e línguas diferentes) trouxe para a sua vida?

Molla. Viagens. Eu nunca viajei tanto e, mesmo exigindo muita organização, sendo caro e levando bastante tempo de um lugar para o outro para dar aulas de crochê, eu adoro. Se eu estivesse atrás de dinheiro eu não teria escolhido essa carreira, mas há tantas outras coisas que importam na vida. Eu conheci pessoas incríveis ao redor do mundo, ganhei tanta inspiração, experimentei comidas diferentes e tudo isso teve um enorme impacto positivo na forma como me sinto e me vejo. Eu sou muito mais aberta à vida hoje do que antes de ter começado a viajar.


URDUME. Quais são as suas referências para criar peças? Quem foram as pessoas que te influenciaram?

Molla. Tudo que vejo me inspira. Eu tiro fotos, faço desenhos, presto atenção às cores nas paredes, pisos de cerâmica no chão, flores no jardim. Eu nunca ouso encarar pessoas, mas já percebi que algumas pessoas de personalidade única também me inspiram. Sempre fico feliz de ver pessoas corajosas que se vestem de uma forma marcante.


URDUME. Como você entende o papel do artesanal em uma época dominada pela tecnologia?

Molla. Eu vejo como uma atividade cada vez mais importante. Para mim, fazer coisas com as minhas próprias mãos é um estilo de vida, e também é bom para a saúde mental, sair da loucura do mundo online. Você vê tanta gente andando na rua com um celular nas mãos e os olhos na tela, é assustador. Mas se você às vezes vê uma pessoa fazendo alguma arte no ônibus, você fica feliz, né?



URDUME. O que você acha do artesanato estar desempenhando papéis diferentes, por exemplo, como forma de manifestação política e expressão social ? Como bordados com uma temática feminista, por exemplo?

Molla. Eu acho incrível. Isso é o que eu fazia como uma jovem punk também, a minha roupa era o meu manifesto. Fico feliz de ver as pessoas fazendo arte por uma boa causa. Devo admitir que sinto um pouco de saudade dos meus anos punk, quando eu usava as coisas que criava da cabeça aos pés e nunca me sentia constrangida. Quando você trabalha profissionalmente, você se torna muito mais crítico em relação às próprias criações. Antigamente, fazia um suéter com uma rede de pesca velha e o vestia sem preocupações, agora eu tenho que pensar duas vezes. É muito importante se manter original e abraçar um pouco da loucura que temos dentro de nós. Em mim, ela se manifesta em peças de crochê.


URDUME. Para terminar a nossa conversa, uma pequena provocação: porque você faz crochê? O que sente quando faz crochê?

Molla. Me sinto relaxada, tranquila e ancorada. Me sentar em silêncio e crochetar é a minha atividade favorita. Eu amo pesquisar materiais em armarinhos, testar fios, falar sobre fios, tomar uma xícara de café e fazer mais crochê. É o modo de me acalmar facilmente e entrar fundo dentro de minha própria bolha, mesmo em uma tarde cheia de compromissos.


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