Descobrindo o crochê na História

Das teorias de seu surgimento aos primeiros registros em livretos, descubra de que maneira o crochê começou a desenhar suas marcas na moda -

por Cyntia Rêgo


O crochê é uma arte que envolve muito mais do que linhas, agulhas, gráficos, pontos e a peça final. É a união de conhecimento passado de geração em geração somado a técnicas e ferramentas, o que o leva ao pertencimento a uma cultura, a um povo. Até este momento sua origem é indefinida - e não por falta de tentativas em encontrar essa resposta. Muitos estudiosos, com o passar do tempo, dedicaram-se a decifrar esse enigma, mas o que temos ainda são

sussurros de um conto - quase fábula - remetendo aos Irmãos Grimm.


A especialista Annie Potter, por exemplo, relata que em 1916 o antropólogo Walter Edmund Roth visitou descendentes dos indígenas da Guiana e encontrou exemplos do que poderia ser o “verdadeiro crochê”. Já Lis Paludan, escritora e pesquisadora, apresenta três teorias: a primeira sugere que o crochê originouse na Arábia, indo até o Tibete (ao leste) e à Espanha (a oeste), de onde seguiu as rotas comerciais árabes para outros países do Mediterrâneo.


A segunda teoria defende que a evidência mais antiga do crochê veio da América do Sul, onde dizia-se que uma tribo primitiva usava adornos crochetados em ritos de puberdade. Por fim, a terceira conta que na China os primeiros registros da prática eram conhecidos de bonecas

tridimensionais trabalhadas em crochê.


Conhecimento passado de mão em mão

Para além das teorias, a história mostra que muitas foram as maneiras de divulgação do crochê, antes mesmo do surgimento dos padrões escritos. As amostras e aplicações dos pontos eram feitas e depois costuradas em tecidos - como se fossem as páginas de um livro - e encadernadas como álbuns. Estes álbuns, que continham as amostras, eram emprestado de pessoa a pessoa para que todos pudessem aprender e fazer aquele determinado ponto.


Em meados de 1800 surgiram os primeiros livretos de crochê, que continham ilustrações em xilogravura da peça a ser aprendida. Eles traziam padrões de golas, adornos de cabeça, xales, punhos, rendas, bolsas e chinelos. E também compartilhavam dicas de materiais recomendados para a confecção das peças em crochê, sempre na cor branca.


Duas décadas depois, em 1824, foram impressos os primeiros padrões de crochê. Sendo que algumas publicações tiveram papel importante nessa divulgação, como a revista Penélope, na Irlanda (1824 e 1849) e a revista Modern Pricilla, nos Estados Unidos (1887-1930), esta possuía apenas 16 páginas e trazia assuntos relacionados ao mundo feminino. Mesmo

com a imprecisão desses primeiros padrões, houve uma euforia generalizada com possibilidades de novidades a serem aprendidas.


O crochê como resgate de oportunidade

Entre os anos de 1845 a 1849, a Irlanda enfrentou um período chamado de A Grande Fome (ou Fome das Batatas). Foram anos marcados por doenças e imigração, em que população daquele país foi reduzida entre 20 e 25%. Diante desse contexto, os trabalhadores irlandeses, ou seja, homens, mulheres e crianças, foram organizados para aprender o crochê.


Escolas também passaram a ensinar a habilidade aos professores, que foram enviados a todo país, mostrando aos trabalhadores como criarem seus próprios padrões. Como resultado desta nova habilidade, as famílias passaram a contar com esses novos ganhos, o que lhes dava a chance de economizar o suficiente para emigrar e começar uma vida no exterior, especialmente na Inglaterra, levando a este novo lugar as habilidades no crochê.


A rainha Vitória, inclusive, era uma exímia tricoteira e esforçou-se para aprender a técnica, tornando-a mais elegante quando comparada às rendas de crochê criadas pelos irlandeses. Elas eram muito usadas pelos nobres e pelos religiosos, e em quase todas as vestes, na cor branca, simbolizando pureza e superioridade. Em sua velhice, a rainha Vitória ainda confeccionou

oito cachecóis e lenços para presentear soldados veteranos da Guerra da África do Sul (1899–1902).


E o que fica para o futuro?

Após esse emblemático “nascimento”, o crochê foi se desenvolvendo e percorrendo mundos e culturas onde adquiriu características específicas. Foi, novamente, alternativa importante em períodos de guerra e escassez, como no início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) em que as mulheres reformaram as próprias roupas e precisaram usar tecidos alternativos.


E surgiu também com força na decoração da casa nos anos 50 - nas famosas toalhinhas de crochê. Até os anos 60, mantinha o estilo clássico adquirido com o crochê irlandês, sustentando as características de trabalhos realizados com fio e agulhas finas. Mas a partir dos anos 60, ele foi mudando consideravelmente e adaptando-se às necessidades das épocas. Na década de 70, por exemplo, sob a influência da cultura hippie, o granny square atingiu seu auge: o quadradinho da vovó aparecia em mantas, xales, vestuário, bolsas e na decoração das casas, ditando moda até hoje.


Com as redes sociais, o crochê ganhou maior visibilidade difundindo, assim, as manualidades

de maneira surpreendente. O grande número de compartilhamento da técnica fez com que mais

jovens se interessassem por essa arte tão antiga. E, se alguém pensava que o futuro iria massacrar e extinguir o feito à mão, o cenário é outro: revitalização e valorização do manual, de tudo que é pessoal, do que demanda tempo para ser feito, do exclusivo e individual. O crochê acompanhou todas as transformações da História e se fortalece a cada dia. O que o futuro, reserva, portanto, parece ser uma mescla entre o artesanal, o industrial e o virtual.

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