TRICÔ À MÁQUINA


Famosa entre as décadas de 1970 e 1990, as máquinas domésticas de tricô - que caíram

no esquecimento da maioria das pessoas - ganham vida nova com as mãos e cores de Jéssica Costa


crédito das fotos: Juss

Na década de 1960, época de forte industrialização no Brasil, imigrantes italianos se instalaram na região das cidades de Jacutinga e Monte Sião, em Minas Gerais. Entre eles, estava o jovem Antônio Pieroni, responsável por trazer a primeira máquina manual de fazer tricô para o país, a Lanofix, transformando a região em referência nacional na fabricação de malhas e tricô.


Febre entre as décadas de 1970 e 1990, hoje em dias as máquinas domésticas de tricô são desconhecidas da maioria das pessoas. Diferente das máquinas domésticas de costura, as antigas Lanofix - como ficaram conhecidas na época - deixaram de ser popular com o tempo e, apesar de ainda serem produzidas, a tecnologia continua a mesma, o que faz com que seja mais comum adquiri-las de segunda mão.


No meio termo entre um tear e uma máquina digital, as Lanofix ou Brother (marca japonesa importada pela a Elgin durante muito tempo) não fazem com que a feitura do tricô deixe de ser manual, como nos explica a artista e mentora têxtil Jéssica Costa, de 31 anos que, quase 60 anos depois, ajuda a manter o ofício vivo.


Na sua Casâtelie, na Vila Madalena, em São Paulo, Jéssica, que é formada em designer de moda, dá aulas de design em tricô para estudantes de moda interessados na técnica que aprendeu no extinto Atelier Knit-1, em Brighton, na Inglaterra. Foi em seu espaço também, rodeadas de máquinas de tricô dos anos 1980 e 1990, que ela recebeu a Revista URDUME para um bate-papo sobre seu trabalho. Com um estilo marcado pelo uso das cores, a artista nos contou sobre como seu encontro os fazeres manuais e sua paixão pelo tricô.


URDUME. Jéssica, de onde surgiu seu interesse por máquinas de tricô domésticas? Existia uma na sua casa?

Jéssica Costa. É curioso, porque a minha história não tem essa bagagem familiar, a minha mãe gosta mesmo é de dançar (risos). O meu interesse veio mesmo quando entrei na faculdade moda e me interessei pela área têxtil. Eu lembro de uma professora dizer que as grandes inovações viriam daí, dos novos tipos de materiais e superfícies. Então comecei a me interessar por, conheci o trabalho da Sandra Backlund [designer de moda sueca especializada em esculturas de tricô] e despertei para as técnicas manuais. Comecei a fazer aulas em armarinhos, mas as professoras tinham dificuldade em me ajudar quando queria criar algo diferente. Meu TCC [trabalho de conclusão de curso] eu já fiz todo em técnicas manuais e a conexão qu etemos com os objetos e memórias. Eu nunca me identifiquei com esse mercado tradicional da moda, essa coisa de criar coleções, então fui trabalhar em uma multinacional de fabricação de produtos têxteis e de costura. Ali eu já atuava com técnicas manuais, mas decidi me aprofundar e fui fazer um curso na Knit-1 [famosa escola de tricô que existia na Inglaterra]. O que era para ser um curso nas minhas férias de um mês se tornou em sete meses de estudos. Foi lá que aprendi a trabalhar com as máquinas de tricô e mergulhei em novas referências.



URDUME. E você já voltou decidida a trabalhar com a técnica no Brasil?

Jéssica Costa. Eu voltei e pensei como eu gostaria de ter tido esse tipo de informação e formação na minha época de estudante, e reparei que nas faculdades de moda de lá o aluno está sempre muito ligado ao fazer, eles tem Knit labs [laboratórios de tricô] como todo o ferramental, por exemplo. É diferente daqui em que somos estimulados a desenhar, mas não colocamos a mão na massa, não sabemos como funcionam os materiais. Quando eu voltei também quis visitar Monte Sião (MG) [considerada a capital do tricô] porque queria conhecer como se dava esse processo de criação de malharia aqui no Brasil. Os italianos imigraram para aquela região foram os grandes responsáveis por trazer a máquina de tricô doméstica para cá e popularizar o nome Lanofix no Brasil. Lá a profissão de programador é muito cobiçada, já que hoje em dia eles usam máquinas digitais e de produção acelerada, e isso me fez perceber também a lacuna que existe entre o designer e o programador, um não entende do sistema e o outro de peças. É quase um “telefone sem fio” que dá margem a um dos nosso grandes problemas, a cópia e a repetição. Quando você não tem recursos, você reproduz o que já existe. Foi aí que pensei que o conhecimento que adquiri poderia ser útil, porque o que você aprende na máquina doméstica pode ser utilizado para o trabalho manual, mas também em escala industrial. Me tornei então algo que nunca havia imaginado, virei professora.


URDUME. E como é dar aula de uma técnica que nem todo mundo conhece?

Jéssica Costa. É muito curioso, porque as máquinas de tricô eram muito populares antigamente. Era normal ganhar uma máquina de costura e tricô quando você se casava, por exemplo. Na nossa geração isso acabou se perdendo e a máquina de tricô ficou bem menos popular do que as de costura. Eu dou muita aula para estudantes de moda que não faziam ideia da existência dela antes de saberem dos meus cursos, e até quando eu vou ofertar o curso para outros espaços, como o SESC, é difícil as pessoas entenderem o que é. Isso porque a nossa conexão com máquina hoje em dia é muito diferente, pensamos em algo que funciona sozinho e automatizado, a máquina de tricô doméstica está muito longe disso, apesar de ser uma máquina, o sistema dela é todo mecânico, o que a torna uma máquina manual .

É o meio entre um tear e uma máquina ligada a energia elétrica. elas vieram com o objetivo de atender a demanda de fazer peças em casa, são diferentes das máquinas indústrias, ela até fecha como uma maletinha, então a ideia era que fosse algo transportável, que você pudesse levar para qualquer lugar.




URDUME. Nós ainda encontramos máquinas como essa para vender?

Jéssica Costa. Ainda existe uma fabricação de réplicas dessas máquinas na China, no Brasil elas são importadas pela Lanofix, que ainda existe. Mas de modo geral elas são adquiridas de segunda mão. Uma máquina dessas importada não é barata. Aqui no ateliê são todas das década de 1980/90, por isso elas têm esse aspecto meio vintage. A máquina que parece mais moderna, porque tem um painel que funciona de forma parecida com um “Pense Bem” [ brinquedo intitulado como um minicomputador nos anos 1980] tem 31 anos. Eu trouxe do Japão com a ajuda de uma artista têxtil que já conhecia do Instagram, mas com quem tive contato quando estive lá. Ela me ajudou a Hackear a máquina e hoje consigo ligá-la ao computador.



URDUME. É por esse mecanismo que você consegue realizar o seu trabalho com as ondas sonoras? [Jéssica fez uma intervenção artística no Festival A Festa, promovido pelo SESC, em que materializa as ondas sonoras de mulheres através da máquina de tricô]

Jéssica Costa. Sim, há um tempo eu queria me arriscar mais como artista têxtil e essa foi uma oportunidade de conectar o meu fazer manual com uma temática contemporânea tão forte que é o feminismo. A ideia deste trabalho é abordar o conceito das ondas da voz. Pegar vozes femininas, sempre tão abafadas, e eternizá-las a partir do tricô. Com essa máquina é possível fazer isso, captar essas vozes e transformá-las em fios.



URDUME. Qual o futuro do tricô à máquina, ainda tem muita gente fazendo?

Jéssica Costa. É curioso, porque apesar de ser uma técnica muito nichada, existem muitos artistas têxteis utilizando ela pelo mundo. O bom da internet é que ela proporciona esses encontros, e isso faz a gente ver que não somos tão poucos assim. Somos um grande grupo de pessoas, só que espalhados por aí.









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