Racismo, preconceito e desvalorização do artesanato no Brasil

Assim que comecei a tecer as pessoas me perguntavam: “Você vai deixar sua profissão para fazer artesanato? Não faça isso, ninguém dá valor.”


Bom, eu não sabia exatamente o que iria fazer quando descobri os fios, mas aquela sentença dada sempre me chamou atenção. Desde então busco explicações para essa questão e, embora o que mais apareça seja que “o artesanato passou a ser desvalorizado com a revolução industrial…”, a coisa só passou a se explicar para mim quando ouvi a antropóloga Lilia Schwarcz, falando sobre racismo no Brasil, no podcast Ilustríssima Conversa da Folha de São Paulo. Nessa entrevista, Lilia diz como até hoje temos uma relação de inferiorização do trabalho manual por conta da sua relação com o trabalho escravo, e como a escravidão moldou a a nossa relação com o trabalho.


Pois é, a razão não é exclusivamente essa, mas a desvalorização do artesanato também é mais uma face do racismo estrutural que impera no Brasil.




Para entendermos melhor o que isso significa, se faz necessário revisitarmos a história e forma como nós, brasileiros, construímos nossa relação com o trabalho que envolve o corpo, em especial as mãos.


Conforme está descrito no livro Ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata, de Luiz Antonio Cunha, desde o início da colonização foram os homens escravizados que ocuparam o papel de carpinteiros, ferreiros, pedreiros e tecelões no colônia portuguesa, já que esse tipo de atividade não era considerada digna de um homem livre. Uma herança da antiguidade clássica, herdada pelos católicos portugueses, que fazia uma clara distinção entre o valor da alma e do corpo e a diferenciação entre as artes mecânicas e as artes liberais.


Já na idade Média, as artes mecânicas eram entendidas como aquelas que diziam respeito à necessidades básicas como a tecelagem, agricultura, alvenaria, culinária e metalurgia (além de medicina e arquitetura*), e as artes liberais eram atividades como lógica, filosofia, gramática, retórica e música.


Dentro desse contexto de separação das artes, que durante o Renascimento, se desenvolveu a diferença entre artista e artífice. O primeiro, garantido por seu trabalho individual e genialidade própria, e o segundo, com seu trabalho anônimo e atrelado a corporações de ofício, e por isso mesmo, sujeito aos baques das transformações tecnológicas que se anunciavam.


No entanto, se em países como a França e Prússia a figura do artífice era de um mestre de ofício, que veio a ser expropriado pela capitalismo com a revolução industrial, na Península Ibérica, o artesanato não floresceu como no restante da Europa e o valor social conferido ao trabalho manual foi especialmente depreciado, sendo rejeitado tanto em Portugal como na Espanha.


Logo, parece óbvio que ao chegarem ao Brasil, os portugueses tenham destinado o trabalho manual aos escravos (índios e africanos), por serem atividades que exigiam esforço físico ou a utilização das mãos, desvirtuando o trabalho artesanal naquilo que mais o caracterizava, o fato de ser exercido por mestres e oficiais livres e autônomos, proprietários da matéria-prima e dos instrumentos de trabalho. Aqui, os homens livres se afastaram do trabalho manual para não deixar dúvidas quanto a sua própria condição.


O que segundo Luiz Antônio Cunha é a base do preconceito contra o trabalho manual, inclusive e principalmente daqueles que estavam socialmente mais próximos dos escravos, como os mestiços e brancos pobres.


Com a abolição formal da escravatura, o artesanato era atividade que escravos livres tinham para exercer, e "o trabalho manual passava, então, a ser "coisa de escravos" ou da "repartição de negros" e, por uma inversão ideológica, os ofícios mecânicos passavam a ser desprezados, como se houvesse algo de essencialmente aviltante no trabalho manual, quando a exploração do escravo é que o era. Para o objeto da exploração escravista, não poderia haver, por certo, motivo algum para valorizar o trabalho naquelas relações. (...) O resultado foi um generalizado preconceito contra o trabalho manual. Mostrar-se livre era distanciar-se o mais possível do lugar social do escravo", relata o autor.


Isso talvez explique porque, segundo Maria Sylvia Porto Alegre, “o artesanato no Brasil, ocupou espaços periféricos e intersticiais da vida social, caracterizando-se por um produção e comercialização dispersa e otimizada, baixa produtividade, insuficiência de recursos financeiros e ausência de “racionalidade”, do ponto de vista da orientação geral do sistema dominante".




Embora tenhamos uma extensa, bela e rica produção de peças artesanais em todo país, ainda enfrentemos a velha questão da desvalorização do artesanato, porque simplesmente ele nunca foi valorizado.


No entanto, ao entender porque isso aconteceu fica impossível querermos gerar valor para o artesanato somente tentando modernizá-lo e dar a ele novas formas de design, certo? É preciso irmos mais fundo, revendo e reconhecendo os preconceitos e racismos enraizados desde a nossa origem com nação. E aí, quem vem junto?



*Alguns autores atribuem a saída da medicina e da arquitetura de um “lugar menor” ao fato delas serem as únicas artes mecânicas que desenvolveram tratados científicos sobre seus objetos, sistematizando e divulgando seu conhecimento.


Referências:

Arte e ofício de artesão: história e trajetórias de um meio de subsistência, tese de doutoramento de Maria Sylvia Porto Alegre.

O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata de Luiz Antônio Cunha

Ilustríssima Conversa, Folha de São Paulo com Lilia Schwarcz

Artesanato: Cinco Pontos para Discussão de Ricardo Lima (IPHAN)

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