Quais são as cosmotécnicas têxteis brasileiras?


Renda de Bilro, Florianópolis. crédito: Natalia Seeger

Que vivemos em tempos de polarização política todo mundo sabe, mas você já parou para pensar que isso também ocorre com a tecnologia? Enquanto alguns aderem a toda e qualquer novidade tecnológica, sem nenhum tipo de objeção, outros resistem à virtualização da vida, desconfiados dos impactos que as mudanças tecnológicas possam causar. Diante deste Fla x Flu, não é incomum que, nós, adeptos e amantes das manualidades têxteis, estejamos mais para o lado dos tecnofóbicos, do que o inverso.


No entanto, esta disputa pareçe contraproducente, já que para o filósofo chinês Yuk Hui - autor do livro Tecnodiversidade, Editora Ubu, 2020 - este é apenas o sintoma de uma cultura monotecnológica. Sim, para o autor, a tecnologia não é antropologicamente universal, seu funcionamento é baseado e assegurado por cosmologias particulares que ultrapassam a simples funcionalidade ou utilidade da técnica. Sendo assim, é preciso confrontar a ideia universalista da técnica, se não quisermos seguir favorecendo uma história tecnológica fundamentalmente europeia. Ou seja, fundada na corrida por um futuro tecnológico cada vez mais homogêneo e apartado de qualquer qualidade ética ou moral. Para Hui, dar vazão à multiplicidade de cosmotécnicas existentes no mundo é, em seu âmago, um projeto de decolonização.





“O que significa uma cosmotécnica amazônica, inca, maia? E, para além das formas de arte e artesanato indígenas a serem preservados, como essas cosmotécnicas poderiam nos inspirar a recontextualizar a tecnologia moderna?” (p.18)


Neste sentido, Yuk Hui propõe que todas as culturas não europeias deveriam sistematizar suas próprias cosmotécnicas e histórias, o que significa a unificação que cada povo fez/faz entre localidade, moral e técnica para a criação de produtos ou obras de arte. Isto nos permitiria enfrentar também a narrativa corrente de um tempo linear “pré-moderno, moderno, pós-moderno e apocalipse”, marco pelo fim da humanidade e ascensão das máquinas.



Para além da tradição, mas junto com ela


Talvez uma das partes mais interessantes do pensamento de Hui seja compreender o valor simultâneo da tradição e transformação. Para ele, a questão não está entre defender ou abrir mão dos costumes ancestrais, mas em como canalizá-la em termos de conhecimento para o mundo moderno. “Se quisermos reagir às perspectivas de autoextinção global, precisaremos retornar a um discurso cuidadosamente elaborado sobre localidade e a posição que o humano ocupa no cosmos.”


Seres humanos se formam em mundos simbólicos e linguísticos variados, e por isso, suas técnicas não são apenas instrumentais, mas se relacionam com suas localidades, crenças e repertórios de vida. Isto não se resume, por exemplo, a diferentes formas de tricotar ou tingir tecidos, tendências técnicas que se encontram em qualquer civilização, mas fatos técnicos atributos particulares que variam de uma civilização para a outra.


No pensamento tradicional chinês, por exemplo, a história da técnica se dá muito mais pela sua relação moral e espiritual do que estética e funcional. A forma é usada apenas como meio para transcendência e aguçamento dos sentidos.


As nossas cosmotécnicas


Quais são, então, as cosmotécnicas brasileiras? Instigado por encontrar estas respostas que o Instituto Urdume inicia 2021 disposto a vasculhar o tema, ao menos no que diz respeito ao têxtil, no país. Um trabalho que obviamente não começa do zero, visto o número de pesquisadores, artesão, artistas e cientistas que já exploraram os fazeres técnicos do país, mas que se propõe a olhar por este recorte, que busca a relação entre tradição e contemporaneidade, sustentado fios de interdisciplinaridade.


Para nós, da Urdume, a questão é compreender como as técnicas manuais têxteis se configuram atualmente, e podem vir a se configurar no futuro - ancoradas em nossa ancestralidade - ao mesmo tempo em que dialogam com questões pertinentes à humanidade enquanto espécie, como a ecologia e cibernética, por exemplo.


Ao retornarmos ao livro de Adélia Borges, Design + Artesanato: o caminho brasileiro, publicado em 2011, por exemplo, é curioso percebermos como ao descrever o artesanato brasileiro, ela faz uma fina e precisa distinção entre aquilo que é feito coletivamente, que são ou podem ser reproduzidos em série, e cuja a técnica é transmitida geracionalmente (e assemelha-se ao que se encontra no resto da América Latina, África e Índia), daquilo que se entende por craft em outros países, como os nórdicos, e dizem respeito a fazeres aprendidas em cursos técnicos e universitários, exercida primordialmente por pessoas instruídas e que vem na atividade uma forma de autoexpressão.




Se por um lado, o número de artesãs têxteis não diminuiu, por outro, em dez anos cresceu exponencialmente o número de “crafteiros” no país. Pessoas graduadas e cosmopolitas que buscaram o fazer à mão como segunda opção de carreira ou forma de expressão. Crescimento que certamente podemos creditar à aceleração da comunicação e troca de informação gerada pelas redes sociais e já nos fazem encontrar atualmente um cenário distinto da última década.


No entanto, se podemos celebrar o retorno ao fazer das mãos, e a aproximação de fazeres de troca intergeracionais, é possível também questionarmos porque somos hoje, neste movimento de retorno, mais “crafteiros” do que artesãos? Qual o impacto dos meios digitais que usamos para nos informar nessa concepção? E como podemos, reconhecendo e reconstruindo nossas histórias técnicas, chegar ao “artesão-crafteiro”? Esses são uns dos questionamentos que nós convidamos vocês a nos ajudar a responder.




O Instituto Urdume segue com sua campanha de financiamento coletivo: contribua agora e faça parte da construção do mapeamento têxtil do Brasil com a gente.


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