Os fios são a metáfora da vida, os Ritos o que a tornam sagrada


De pequena procuro conexão e sou guiada por uma consciência, que falha, mas não abre abismos. Me cobra, me puxa, e me apresenta a contradição como um caminho. Uma entidade que tenta se impor aos pensamentos, ao peso dos olhares que carrego sobre mim e luta incessantemente para ganhar vazão. Eu nem sempre deixo, mas é água e, de tão forte, vive a escorrer pela minha frágil razão. Quem vê de fora pensa ver rio, mas mal sabe do mar de fortes ondas e emaranhados fios que vivem em mim. São eles que, através dos meus dedos, agora podem fluem entre linhas e agulhas e me impulsionam a escrever. Um caminho sem volta, porque até mesmo a minha mente entendeu que os fios são a metáfora da vida, os Ritos o que a tornam sagrada, e a arte o caminho.


O poema de Fernando Pessoa, Jesus Menino, é a melhor definição disso (abaixo apenas um trecho):


“Eu vi Jesus Cristo descer à Terra. (...) tinha fugido do céu. Era nosso demais pra fingir-se de Segunda pessoa da Trindade. (...) Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança bonita, de riso natural.” (...) A mim, Ele me ensinou tudo. (...) Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda. (...) eu lhe conto histórias das coisas só dos homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios. Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo materno até Ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho, sorrindo para os meus sonhos.”


Melhor que ler, só ouvi-lo na voz da maravilhosa Bethânia:



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Curitiba - Brasil

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