O ENCANTO DOS BONECOS DE CROCHÊ



INFÂNCIA


Conheça a trajetória da criadora da Pica Pau, os processos criativos dos personagens e seu primeiro contato com as artes manuais


Por Iris Alessi - entrevista publicada na Revista Urdume #02 [Mai/2019]

Fotos: divulgação Yan Schenkel

Nascida em Buenos Aires, Yanina Schenkel é filha de um argentino com uma brasileira, e foi com a mãe e a avó que Yan aprendeu a fazer crochê desde cedo. Idealizadora da marca Pica Pau, que depois virou o título de seus livros, ela estudou Artes Visuais na UNA (Universidad Nacional de Las Artes) e, atualmente, dedica-se a criar bonecos encantadores em crochê para que muitas pessoas possam tecê-los também. Saiba mais sobre a história de Yan, que não considera o crochê uma “coisa de vó”, mas, sim, de brasileiro.

REVISTA URDUME: Quais foram os teus primeiros pontos no crochê?

Yanina Schenkel: Acho que a primeira vez eu deveria ter uns oito anos. Minha mãe, gaúcha, gostava de fazer babadinhos nas toalhas de banho e minha avó fazia essas galinhas que se coloca no bico da chaleira para aquecer água. E eu adorava! Para mim, crochê não era coisa de vovó, mas de brasileira. Contudo, não via o sentido em fazer nenhumas delas, então preferi aprender tricô e só voltei a pegar numa agulha de crochê aos 25 anos, quando tive uma colega de Belas Artes que fazia bolsas. Mas como ela não gostava muito de ensinar, eu tecia sem saber os nomes e ia mudando os pontos a cada carreira. Decidi pegar os livros de tecido da minha mãe, mas nenhum ensinava como pegar e passar os fios nas mãos. E é por isso que, até hoje, eu pego a agulha e fio de um jeito nada “tradicional”.

URDUME: Onde conheceu os amigurimis e quando começou a tecê-los?

YS: Fiz o meu primeiro boneco em crochê sem saber que eles tinham esse nome. E o primeiro foi um ursinho para um cachecol que fiz para meu filho quando ele tinha 6 anos - isso há 11 anos já! Gostei tanto que continuei, mas sem saber bem o que eu estava fazendo. Procurei outras pessoas tecendo esse tipo de bichinho e achei! Os blogs estavam no auge na época, e foi aí que descobri também o nome amigurumis e não gostei nada (risos). Ainda continuo lutando um pouco contra esse nome (risos).

URDUME: Qual foi o teu primeiro padrão criado?

YS: Foi o segundo ursinho que eu fiz. Logo depois, teci algumas bonecas e coelhinhos. Mas os primeiros “Pica Pau”, com o jeitinho de Pica Pau, foram o macaco Jacques e a raposa Lucas.



URDUME: Quando nasceu a marca Pica-Pau?

YS: Em 2009, quando depois de fazer alguns bonecos, decidi começar um blog e ter uma página no Facebook para poder compartilhar meu trabalho. Éramos tão poucos e as fotografias tão feias (risos).

URDUME: Aliás, por que ganhou este nome?

YS: Queria um nome que em espanhol não tivesse nenhum significado e não estivesse relacionado com a palavra amigurumi. Eu não sabia se eu ia a continuar fazendo bichinhos em crochê e queria ter um nome que identificasse o blog e qualquer outro produto. E também Pica Pau porque eu cresci escutando a minha mãe falando dos contos do Sítio do Pica Pau Amarelo. Aliás, ainda tenho a minha boneca Emília.

URDUME: Como é o teu processo de criação de bonecos?

YS: O tempo todo estou “colecionando” imagens, fotografias, ilustrações etc, e vou desenhando personagens, roupas ou qualquer coisa que acho possa me servir na hora de pensar uma personagem. Também vou montando listas de animais que gostaria de fazer, procuro fotografias e pesquiso sobre seus hábitos porque me ajuda a pensar e escrever as suas histórias. Aí vou completando cadernos com rabiscos, anotações, cores. Sempre vou misturando isso de desenhar, pesquisar e tecer. Se for possível, faço um pouco de cada um no dia.


URDUME: Quando você percebeu que criar e vender bonecos e padrões poderia ser sua principal atividade?

YS: Comecei a vender bonecos em 2010, que foi quando também coloquei à venda os meus primeiros padrões no Etsy. Em 2011, quando comecei a dar aulas de crochê, surgiram dois trabalhos importantes: desenhar meus primeiros bonecos para uma grife infantil e participar do meu primeiro evento no Malba. Nesse momento percebi que podia ser um trabalho sério mesmo e isso tornou-se a minha principal atividade. Mas como fazia tudo sozinha, nunca cheguei a viver somente dele. Foi em 2015, com meu primeiro livro, que passei a “viver” desse trabalho.


URDUME: Como surgiu a ideia para escrever seu primeiro livro de padrões?

YS: Ele saiu depois de muito insistir muito, muito (risos). Eu já tinha mais de 30 personagens e ainda vendia os bonecos, mas muitas “marcas” locais estavam me plagiando. O livro era um modo de me confirmar como autora desses bonecos que, para mim, são muito mais que simples bichinhos em crochê: são minhas personagens, minhas criaturas. Além disso, amo livros e, aqui na Argentina, ainda não existia nenhuma publicação deste tipo, então seria um lindo desafio.

URDUME: Como os artesãos podem ajudar a combater a pirataria?

YS: Talvez a solução seja que todas as pessoas façam o esforço de valorizar e mencionar o trabalho do outro, do autor e dos artesãos, tanto por parte dos consumidores, leitores, como das editoras. Acho importante o trabalho de muitas novas publicações que enfatizam e valorizam a obra do autor, pois elas não estão apenas ajudando a lutar contra pirataria, mas agregando valor a todas as artes manuais.

URDUME: Na sua visão, qual o futuro das artes manuais?

YS: Na primeira vez em que me entrevistaram respondi a esta mesma pergunta. Naquele momento, acreditava que as pessoas tinham necessidade de voltar às coisas mais simples, feitas à mão, sentidas, cuidadas e valoradas. Mas, fora isso, que talvez seja a parte mais comercial do assunto, acredito que as artes manuais estão ligadas à mulher e por muito tempo estiveram presas em casa do mesmo jeito que a mulher. Agora, com o ressurgimento do feminismo e as vozes de novas gerações, estes trabalhos estão saindo dessa clausura e sendo vistos, apreciados e valorizados. Mas sei que ainda estamos começando e temos muito caminho a percorrer.

Curitiba - Brasil

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