[O Artífice] Prólogo - O Homem, criador de si


Esse texto faz parte de um série sobre o livro "O Artífice", de Richard Sennett, que tem por objetivo a compreensão da mensagem na obra, e sua aproximação com as artes manuais têxteis.


Por Estefania Lima


Richard Sennett é um dos maiores intelectuais em sociologia urbana contemporânea. Ph.D. em História da Civilização Americana pela Universidade de Harvard, seu trabalho une sociologia, história, antropologia e psicologia social. Apesar de seus principais estudos estarem voltados a vida dos trabalhadores no meio urbano e questões ligadas à arquitetura das cidades, Sennett é também o autor da trilogia Projeto Homo Faber, que busca resgatar as habilidades necessárias à vida cotidiana como o fazer, a cooperação e o habitar.


O primeiro deles, o Artífice, desperta especial atenção naqueles que, como nós, se interessam pela conexão entre o fazer manual e o pensar. Para o sociólogo, todos nós podemos ser bons artesãos e, como isso, governarmos a nós mesmos.


Capa do livro "O Artífice" no Brasil editado pela Record.

Por isso, a partir de hoje, o blog da URDUME ganha uma categoria chamada “O Artífice”, onde falaremos, semanalmente, e sequencialmente, sobre trechos ou capítulos do livro. No prólogo de "O Artífice", que comentaremos a seguir, Sennett conta melhor sobre a elaboração e origem do projeto.



"O Homem criador de si mesmo"


Richard Sennett incia o "O Artífice" com o prólogo "O Homem criador de si mesmo", em que explica que este é o primeiro livro de uma série - de três volumes - dedicados à cultura material e a técnica, todos relacionados ao mito grego da caixa de Pandora. Segundo ele, um ambicioso projeto que nasce de seu desejo de sustentar, perante as ideias da filósofa alemã, Hannah Arendt, a seguinte argumentação:


"As pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, a cultura material é importante"

O que não foi capaz na juventude, quando era aluno de Arendt, e especificamente em um encontro que o autor descreve no livro, e que acontece dias após da Crise dos mísseis de Cuba, em 1962 - evento histórico, durante a Guerra Fria, marcado por uma quase guerra nuclear - no qual Arendt, ao refletir sobre o ocorrido, faz questão de reafirmar sua tese de que os homens perderam a capacidade de refletir, explicar e justificar suas ações e criações, após o período moderno.


Hannah Arendt faz parte de um geração de filósofos do começo de século XX, que vivenciou a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e os avanços tecnológicos provenientes delas, e eram resistentes às tecnologias, pois associavam a ela um tipo novo de alienação dos seres humanos, que no caso de Hannah Arendt ficaram marcados por dois importantes conceitos vita activa (labor, trabalho e ação), com o qual Sennett vai se defrontar mais diretamente em o Artífice,descrito no livro "A Condição Humana" de 1958, e a banalização do mal, descrito no livro "Eichmann em Jerusalém", de 1963.


Para entender o pensamento de Hannah vale assistir ao trecho do filme abaixo - "Hannah Arendt", de 2012. Embora a personagem esteja falando especificamente do conceito de banalização do mal, ele não deixa de ser uma continuidade de sua ideia sobre a condição humana:



Outro personagem importante de ser abordado antes de seguirmos para o posicionamento de Sennett propriamente dito, é Robert Oppenheimer, o diretor do projeto Los Alamos - responsáveis pela criação da bomba atômica. Seu caso é exemplar para o que será discutido a seguir. Embora tivesse um talento científico e administrativo de destaque, sendo o mentor e coordenadora da criação de uma arma que quase acabou com a humanidade, não demostrava refletir muito sobre o impacto de suas criações, como é possível observar nas seguintes declarações feitas por ele: "quando vemos alguma coisa tecnicamente agradável, vamos em frente e fazemos, e só pensamos no que fazer com ela depois de alcançarmos sucesso no ponto de vista técnico, foi assim coma bomba atômica" ou "Que bom entregar a humanidade em geral o maior poder possível de controlar o mundo, para que ela possa lidar com ele de acordo com seus conhecimentos e valores".



Hannah Arendt

Para Arendt tanto Eichmann, quanto Oppenheimer não estavam refletindo sobre o impacto de suas criações durante a execução de seus trabalhos, eram apenas burocratas realizando suas tarefas da melhor forma possível.


Mas não é só, antes de entendermos o pensamento de Sennett, precisamos apresentar ainda um terceiro personagem,Pandora. Seu mito, de origem grega, servirá como pano de fundo metafórico para que o autor aponte o medo ocidental do homem em relação à técnica. Para quem não se recorda das aulas de história, no mito, Pandora foi enviada a Terra por Zeus como punição pela transgressão de Prometeu, que roubou o fogo dos Deuses para dar aos homens. A Deusa tinha uma caixa onde podia guardar bens de todo o tipo, com exceção de bens materiais, e ao guardar o colar de Prometeu, que Zeus havia lhe dado, como era um bem material, ele se auto-destruiu. Em outra versão do mito, Pandora foi criada por Zeus após Prometeu ter roubado o fogo, e enviada a Terra. A Deusa tinha um único defeito, a curiosidade. Por isso, Zeus enviou junto a caixa, porque sabia que um dia, a vontade de Pandora a levaria a abri-la e libertar o mal ao mundo humano, castigando-os pelo fogo que haviam recebido contra sua vontade.


Independente da versão escolhida do mito, o importante é que ambas apontam para um medo

Caixa de Pandora

que não tem origem na tecnologia, mas na engenhosidade e curiosidade humana capazes de gerar tais artefatos.


Dito isso, é preciso dizer que para Sennett esse não parece ser um medo irracional. Afinal de contas, no começo do século 20 mais de 70 milhões de pessoas foram mortas pelas guerras e, atualmente, nos tempos de "paz tectonológica" vivemos na iminência de um colapso ambiental. A questão para Sennett é que, apesar deste medo não ser irracional, ele pode ser paralisante, e nos levar a ideia de que a solução seria "parar no tempo", abrindo mão do que o homem é capaz de construir.


No entanto, o próprio Oppenheimer em seu tempo preveniu, que "tratar a tecnologia como inimiga serviria apenas para deixar a humanidade ainda mais indefesa". Nesse sentido, pensar sobre sobre a tecnologia passa a ser essencial, e aí onde nascem as diferenças entre Arendt e Sennett.


Para a filósofa esse pensar passa pelo diálogo, a fala e a ação. É através do debate público que Arendt sugere, por exemplo, que o impasse sobre o que fazer com a bomba atômica deveria ter sido resolvido. Nesse cenário, a filósofa, herdeira dos pensadores gregos clássicos, atribui extrema importância a política e a esfera pública de debate. Já para Sennett, esse diálogo pode ser estabelecido mentalmente entre o homem e a matéria, pois acredita que pensamento e sentimento estão contidos no processo do fazer.


É por isso, que Sennet discorda da divisão que Arendt faz sobre as "condições humanas" de "excercício da vida", marcadas na distinção que a autora faz entre o Animal Laboreans x Homo Faber. O primeiro refere-se ao trabalhador braçal, condenado a rotina e que toma o seu fazer como um fim em si mesmo (como os exemplos citados acima), já o segundo, é apresentado como um tipo de trabalho que homens e mulheres fazem para criar uma vida em comum. O segundo é superior ao primeiro, pois possui uma capacidade de julgamento que o outro não tem. O homem então viveria em duas dimensões: uma na qual executaria tarefas e guiadas por um "Como" (A. Loaboreans) , e outra, mais elevada, na qual passaria a discutir e fazer avaliações coletivamente, e guiados pelo "Por quê" (H. Faber).


Aqui, farei uma explicação adicional para que possamos compreender bem a diferença entre os dois:


Para Arendt o Animal Laboreans é aquele trata dos fazeres de sobrevivência, executando tarefas que garantam sua existência corpórea, assim como uma planta ou animal. Isso o afastaria de sua condição de ser humano ( É o caso de Oppenheimer e Eichmann que "abdicaram de sua condição de seres pensantes" em prol da execução de uma tarefa que não trazia benefícios para a humanidade, mas garantiam seus sustentos e de suas famílias) .


Já o Homo Faber é também um trabalhador, mas de forma racional e política, pensando sempre no bem do pólis e do público, mas que para isso seja possível, é preciso se afastar das tarefas do corpo. Arendt é herdeira do pensamento clássico grego, onde há uma hierarquia do trabalho intelectual sobre o braçal - ou de sobrevivência - como fazer comida, roupas ou objetos de uso corriqueiro. É importante lembrarmos, que apesar de serem os pais da democracia, os gregos eram pensadores "livres", graças aos escravos que mantinham para realização das atividades que consideravam menor. Ou seja, quando Arendt põe o burocrata na conta do Animal Laboreans, ela está reforçando o pensamento discriminatório com as atividades de sobrevivência. Reforçando separações clássicas como a ideia de superioridade da arte sobre o artesanato.

Feito esse, pequeno (grande) parenteses, voltamos ao pensamento do Sennett, que ao contrário de sua professora, acredita que ao ignorar o processo original de criação, das práticas diárias com a matéria, estamos nos afastando da possibilidade de compreensão e enfrentamento dos problemas oriundos da matéria, como a bomba atômica, por exemplo. Para ele, é preciso ter uma compreensão material da produção das coisas e um materialismo* cultural vigoroso para gerar pensamentos materiais capazes de lidar com as criações materiais dos homens.


*a palavra materialismo nesse caso não tem a mesma conotação do pensamento marxista, relacionada ao consumo.


E é a partir deste contexto, que o autor, começa a estabelecer as bases do caminho que irá traçar em seu livro sobre habilidade artesanal. A expressão, que para alguns pode parecer ultrapassada após o advento da sociedade industrial, para o sociólogo é a tradução do impulso humano básico e permanente, de um trabalho bem feito por si mesmo, e que não está restrito só ao trabalho manual, mas pode ser observado em todas as áreas da vida.


Mas é claro que, diante de todo esse raciocínio anterior, Sennett não seria simplista ao afirmar que a habilidade artesanal pode ser resumida a uma disciplina advinda do desejo de ser recompensado pelo orgulho do resultado de seu trabalho. O sociólogo sabe que padrões de excelência por si só podem se tornar conflitantes quando se entrelaçam às estruturas do capitalismo, frustrações, pressões competitivas e obsessões, vide os exemplos acima e suas criações.


O que Sennett acredita é que as pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, e que a cultura material é importante, mas que para isso, precisamos compreender a cultura material como parte da natureza. Por isso, o autor traz a habilidade artesanal para relação intima entre a mão e cabeça, afirmando que todo bom artífice sustenta um diálogo entre práticas concretas e ideias, que evoluem para hábitos prolongados, criam ritmo para detecção e solução de problemas.


Por último, ele nos adianta o que estar por vir, descrevendo a forma como dividiu seu livro:


Parte I - A dificuldade da civilização ocidental em estabelecer ligações entre a cabeça e as mãos, e de reconhecer e estimular a habilidade artesanal;

Parte II - O desenvolvimento da capacitação e as teses de que todas as habilidades, até mesmo as mais abstratas, têm inicio como práticas corporais; e que o entendimento técnico se desenvolve através da força da imaginação;

Parte III - Questões de motivação e talento: O desejo de qualidade do artífice cria um perigo motivacional: a obsessão ode fazer com que as cosas saiam a perfeição pode deformar a própria obra;

Conclusão - Como o estilo do trabalho do artífice pode contribuir para ancorar as pessoas na realidade material.


E então, gostaram? Esperamos que tenha ajudado a esclarecer esse prólogo tão importante da obra de Sennett. Na semana que vem começaremos a falar da primeira parte do livro. Até lá!

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