Muitas opções, liberdade de escolha ou aprisionamento da vida?

Antes de questionarmos nossas "escolhas" de compra, avaliando a composição dos fios que consumimos, precisamos refletir sobre as nossas motivações e condicionamentos.


Quando fiquei sabendo que os temas “consumo”, "composição",” condição de trabalho” e “ações coletivas” seriam os pilares de diálogo da Semana Fashion Revolution 2020, logo pensei como seria importante, neste espaço, aprofundar o diálogo sobre os dois primeiros temas. Afinal, nós da comunidade artesanal, estamos sempre correndo o risco de, ao nos imaginarmos a certa distância da lógica industrial, estarmos ainda mais próximos dela. Muitas vezes, ao reduzirmos nosso consumo de roupas prontas, já que nós mesmos podemos fazê-las, deixamos o consumismo de peças de vestuário para nos tornarmos ávidos consumidores de insumos, e pior, de composições questionáveis.


Se fôssemos bons observadores, ao entrarmos em um armarinho, faríamos um esforço para ir além dos impulsos emocionais, aos quais somos acometidos quando ficamos frente a frente com uma enorme variedade produtos (leia-se novelos de linha, meadas, agulhas e apetrechos mil). Ao ler os rótulos, tocar nos objetos, e descobrir suas composições, técnica e social, compreenderíamos rapidamente o motivo de um novelo de lã acrílica produzido na China, ou na Turquia, custar dez vezes menos do que uma meada de lã de ovelha vinda do Rio Grande do Sul.



A verdade é que, apesar da nossa produção ser artesanal - e esse tipo de atividade ser uma oportunidade ímpar para reflexão sobre consumo - a origem de quase 100% dos insumos que utilizamos seguem uma lógica industrial que é incompatível com o tempo da vida e da natureza. Além das novas coleções de novos fios a cada estação, a maioria esmagadora delas são feitas de plástico (acrílico, nylon, viscose, etc.), não eximindo nenhum de nós da responsabilidade sobre os 342 milhões de barris de petróleo utilizados por ano para a produção de têxteis.*


É claro que essa não é e não pode ser uma responsabilidade apenas do consumidor. Como disse acima, essa é a realidade vigente do mercado e, as poucas marcas que prezam e vêm trabalhando com uma cadeia responsável de produção enfrentam todos os entraves e dificuldades que os pequenos e médios empreendedores lidam para disponibilizar e tornar acessível seus produtos (afirmo por conhecimento de causa). Do outro lado, as grandes empresas estão mergulhadas neste velho sistema até o pescoço e abandoná-los requer iniciativa, tempo e coragem.


Mas hoje, não entrarei neste mérito, meu desejo aqui é falar como você, caro leitor - que também tem suas limitações - mas pode, como pessoa, contribuir para uma mudança no coletivo (sem dar a entender que isso seja fácil, prático e rápido, pois não é).


Vivemos tempo complexos, nada é preto no branco, não existe mais a ideia dos maus versus os bonzinhos. Se por um lado isso é bom, já que é da natureza do ser humano ser complexo, isso também torna tudo mais difícil, dificultando a apreensão e decodificação das nossas próprias contradições expressas em tudo que nos cerca.


No cenário em que nos encontramos, se não nos mantemos atentos, tornamo-nos presas fáceis de uma rede que não é comandada por um grande vilão, a quem precisamos combater, mas sim uma teia - tecida à várias mãos - de raízes fortes e caráter estrutural. É como se vivêssemos em um enorme novelo lã, daqueles bem cheios de nós, optando sempre pela dualidade de: ou deixar aquele fio como está ou apelando para a violência do corte brusco de uma tesoura, quando sabemos que só mãos e mentes pacientes são capazes de desatá-los.


Eu sei que sempre parece mais "fácil" deixarmos as coisas como estão, e essa é a nossa saída

mais recorrente, apesar de nos incomodarmos com os nós. Como dizia o filósofo Michel Foucault, estamos inseridos em “uma sociedade que (...) denuncia os poderes que exerce, e promete liberar-se das leis que a fazem funcionar”. Ainda assim, sendo esta a vida - e não tendo um novo novelo à disposição para compra, para simplesmente recomeçar - vale à pena tentarmos desembolar antes de recorrer à tesoura. Caso contrário, ou morremos aos poucos, ocultando as nossas próprias angústias (e mergulhando na falsa alegria de possuir milhares de novelos e fios) além de ignorar as dos outros (fechando os olhos para a composições e forma de produção desses novelos), ou morremos e matamos de vez com o corte seco da tesoura (nos isolando em mundos de radicalismos e suposta superioridade).


Trocando em miúdos, quero dizer que antes de (uma possível) mudança, é preciso a aceitação. E aceitação se baseia no desejo de encaramos a realidade, sem romantizar ou demonizar, mas com a consciência sobre as artimanhas da rede, e atentos para que a nossa subjetividade não seja feita de opções de compra ou que a materialização da nossa verdade interior se resuma as escolhas materiais.


É por isso, que não vou, e não quero, terminar este texto lhe oferecendo como solução uma nova opção de consumo - nem quero que este texto chegue a público com um dedo em riste na direção de ninguém. Mas pelo contrário, o que desejo para você, e para mim, e que tenhamos consciência deste tear onde se desenrolam nossos fios. Que saibamos o tanto que ele exige de nós, ao nos transformar em consumidores e produtos e que, ainda assim, mesmo a mercê desta trama, possamos nos lembrar que possuímos um fio, uma linha guia, que nos orienta e nos liga aos outros, fazendo com que nós nos reconheçamos como parte da natureza.


Talvez assim sejamos capazes de manter a coerência, não diante do mercado, mas da vida, tenhamos a tranquilidade para refutar, o que hoje nos é apresentado como liberdade: a multiplicidade de escolhas, doa a quem doer.


Como os antigos já diziam, nem tudo que reluz é ouro, e nos anos de 1970 Foucault já questionava “em uma sociedade como a nossa, onde os aparelhos do poder são tão numerosos, seus rituais tão visíveis, e seus instrumentos tão seguros, por que reduzir o poder de dominação aos procedimentos de interdição?", ou seja, seria inocente de nossa parte, reduzirmos o controle externo a nós a uma falta de escolha.


Vale manter à atenção.


Referências bibliográficas:


*Ellen McArthur Foundation, 2017 citado por Fashion Revolution Brasil

A Vida para o Consumo - A Transformação das Pessoas em Mercadoria, de Zygmund Bauman

História da Sexualidade I - A Vontade de Saber, de Michel Foucault


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