Hilma af Klint: mundos possíveis


Há duas semanas uma amiga me disse: "Tetê, você conhece as obras da Hilma af Klint? São a sua cara." Ontem, essa mesma amiga me convidou para uma visita guiada das obras da artista, e eu confirmei, Hilma af Klint é a minha cara.


A partir da obra da Hilma eu poderia desmembrar dois temas que ainda quero tratar com maior profundidade nesse espaço: 1) a suposta distinção entre artesanato e arte e 2) o sentido do 'Ritos' no título desse projeto. Nesse momento, me dedicarei a falar sobre o segundo.


'Ritos' representa a sensação de gratificação espiritual que alcançamos através do fazer com as mãos. Basicamente a ligação com o sagrado que conquistamos ao colocarmos nossas mãos (ou corpo todo) a serviço da criação. O verdadeiro religare da religião.


Obviamente nem sempre temos essa sensação, no entanto, para Hilma, esse processo fazia parte da própria obra e marcou sua história.


Série As Dez Maiores, sobre as fases da vida

Hilma af Klint (1862-1944) nasceu na Suécia e foi uma das primeiras mulheres da sua geração a receber educação artística de nível superior. Era membro-fundadora de um grupo de artistas mulheres, chamado Fem, e se dedicou a pintar mundos invisíveis, sendo fortemente influenciada pelos movimentos espirituais da sua época como a Teosofia, a Ordem Rosa Cruz e a Antroposofia. Hilma afirmava pintar conduzida por espíritos superiores e, dessa forma, não só antecipou em 30 anos os movimentos surrealistas, como retratou em suas imagens abstratas, muito do que a ciência ainda não havia revelado, a exemplo do Big Bang e da fita de DNA.


Influenciada por Rudolf Steiner, Hilma viajou a Suíça para se juntar ao círculo de estudiosos da Antroposofia, tendo estudado a fundo o livro Doutrina das Cores de Goethe. Algo que marcou sua obra, que passou a ser produzida em aquarela, seguindo o método preconizado na antroposofia por Steiner. Seria Steiner também o responsável por alertar Hilma sobre o futurismo de sua obra, que segundo ele e os espíritos que a orientavam em sua produção, não deveria ser exposta naquele tempo.


Alerta que fez com que em vida Hilma só expusesse obras naturalistas e deixasse um adendo em seu testamento determinando que sua obra espiritual fosse mantida em sigilo por pelo menos 20 anos após a sua morte. A artista faleceu aos 82 anos e deixou cerca de 1.200 pinturas não figurativas, além de 124 cadernos, totalizando 26 mil páginas de manuscritos sobre suas pesquisas espirituais, científicas e filosóficas, nos quais explica a infinidades de simbologias compreendidas em sua pintura.


A família de Klint respeitou sua vontade e a primeira exposição de Hilma só aconteceu em 1986, na cidade de Los Angeles. Só agora, em 2018, as obras da artista chegam a América Latina, na Pinacoteca de São Paulo.


Comigo, Hilma mexeu profundamente. Sua série das religiões é de uma beleza e simplicidade ímpar, retratando os pontos de vista dessas práticas espirituais, e imaginá-la sendo produzida no começo século XX faz a gente acreditar que essa era realmente uma obra para o futuro:



Mas o que realmente me tirou o ar foi a figura n 1 da série Retábulos. Cartografando o sagrado, Hilma faz aquilo que cabe aos artista, traz o invisível a nós. Em uma tela de proporções enormes, a pequena Hilma, de 1,55m de altura, foi gigante em retratar nosso Eu Maior (cabe dizer aqui que essa é a minha interpretação pessoal do quadro).

Série Retábulos - figura 1

Hilma af Klint é o resumo de tudo que quero abordar aqui. Ela é mulher, feminino, feminismo, intuição, manipuladora dos fios da vida, senhora dos Ritos, e é muito simbólico ter ido a sua exposição no dia em que Fios e Ritos veio ao mundo. Grata pelos sinais da vida.


Evoé, antepassada, Hilma!


Serviço:

Hilma af Klint: Mundos Possíveis” permanece em cartaz até 16 de julho de 2018, no primeiro andar da Pinacoteca na Praça da Luz. A visitação é aberta de quarta a segunda-feira, das 10h00 às 17h30 e os ingressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia).

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