Entre-laços, uma ode à delicadeza

Atualizado: 24 de Jun de 2019



O filme Entre-laços, dirigido por Naoko Ogigami (conhecida por fazer filmes que promovem cura emocional), apresenta a história de Tomo, uma menina de 11 anos, que ao ser deixada sozinha pela mãe, vai morar com o tio Makio e sua companheira transexual Kinko. Ambientado no Japão, o filme é uma obra-prima da delicadeza e repleto de mensagens e simbologias que abordei nos tópicos abaixo:


1) Kinko, a curadora ferida.

Kinko, companheira trans do tio de Tomo, nos é apresentada do seio do lar. Diferente das abordagens usuais sobre o tema, a personagem assume o papel de esteio familiar. Dentre todos ela é quem apresenta maior equilíbrio e estabilidade emocional. Kinko é a própria curadora ferida, o Quíron da mitologia grega que, por ter sentido a dor e carregá-la consigo, era capaz de se colocar no lugar do outro. Habilidade que Kinko aprendeu com a mãe.



2) Acolhimento gera empatia

Apesar de Kinko ter sofrido as dores de se perceber habitando um corpo com o qual não se identificava, em casa, ela foi acolhida. Sua mãe deu forma aos seus desejos através do tricô e ofereceu a ela um espaço seguro de transição.


3) Amor entre mães e filhos

Se Kinko teve uma relação amorosa com sua mãe, essa não foi a realidade da família de Tomo. As três gerações representadas no filme (avó, mãe e neta) apresentam relações maternas marcadas pelas desilusões da vida. No entanto, essas marcas não são suficientes para dissolver o elo entre essas mulheres, que no filme é simbolizado por uma música cantarolada pelas três.


4) As várias facetas do tricô

Metáfora é a palavra desse filme e o tricô é sem dúvida a maior delas. Na história ele serve como suporte para dissolução de mágoas, raivas, transições e amores. Ele aquece, expulsa, acolhe e reúne das mais diversas formas possíveis.



5) A construção do feminino

Um dos principais usos simbólicos do tricô se dá na materialização do feminino. Na história de Kinko ele tem papel fundamental no tecer de um novo corpo, em especial, na relação com os seios. Seios, que por sua vez, carregam a simbologia do ser mulher, mãe e cuidado.


6) O Tricô como Rito de passagem

Para Kinko tecer a malha de tricô de 108 falos é dar forma a seu próprio ritual de passagem. Entrelaçado a prática budista e ao elemento fogo, tricotar lhe serve como Rito de transformação do corpo amparado em relações de afeto.



7) Tricô como terapia

Podemos transformar a raiva em algo bonito? O filme aposta que sim. Kinko ensina a Tomo que não se deve reagir agredindo alguém mesmo quando se sente muita raiva, e para aplacar esse sentimento é possível fazer algo como o tricô. Assim, ponto a ponto, o sentimento ruim se desfaz.


8) Amor pelo ser humano

Por último, o filme traz a ideia do amor pelo ser humano em detrimento a qualquer outro papel ou identidade. Ao ser questionado por Tomo como seu romance com Kinko se iniciou, seu tio afirma que se apaixonou pela beleza da pessoa que ela era e, apesar de ter ficado confuso com o fato dela já ter sido um menino, isso não diminuia o seu amor.


Entre-laços tem tantas camadas que eu poderia descrever mais uma dezenas de assuntos abordados no longa. Entretanto, eu espero que esses oito tópicos sirvam para te instigar a ir ao cinema mais próximo e vivenciar esse encontro com o sensível. Eu poderia assistir Entre-laços mais uma 50 vezes. Espero que você não deixe de assistir pelo menos uma.


Só não esqueça os lenços.



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