Algumas questões socioculturais que definiram o caminho das artes manuais têxteis no Brasil





Existem muitos estereótipos e opiniões formadas sobre têxteis no Brasil. Conhecer suas raízes é fundamental para que possamos avançar no debate de atualização e desconstrução de muitas delas. Por isso, é necessário trazermos à tona algumas questões socioculturais que definiram, e ainda definem, o caminho das artes manuais têxteis no Brasil.


A primeira delas diz respeito à desvalorização das artes manuais têxteis, que remonta à ocupação das terras americanas por Espanha e Portugal e o assentamento de suas colônias de

exploração econômica. Distinguindo-se de outros países da Europa, que tinham apreço pelas

corporações de ofício, na Península Ibérica o valor social do trabalho manual era especialmente baixo. Sendo assim, desde o início da colonização, os trabalhos manuais na América Latina foram desprezados pelos “homens livres”, ficando a cargo de indígenas e negros escravizados, que eram racializados e inferiorizados pelos colonizadores, assim como os próprios trabalhos manuais. Sistema que, em grande medida, vigora até os dias de hoje.



Indígenas submetidas a educação católica


Ponto que se liga a outros dois pontos fundamentais da história dos fazeres manuais nesta

região: o apagamento da cultura dos povos originários e africanos, e a difusão das artes europeias por ordens religiosas, que tiveram papel fundamental no projeto educacional e civilizatório das Américas. Jesuítas, beneditinos, franciscanos e carmelitas foram responsáveis

por, nos primeiros séculos de colonização, organizarem reduções, igrejas, escolas, conventos

e mosteiros. Todos construídos com intelectualidade e projeção europeia, mas materiais

locais e mão de obra indígena e escravizada.


Embora houvesse, nestas ordens religiosas, majoritariamente masculinas, uma clara hierarquização do conhecimento intelectual e das artes liberais, que buscavam criar uma cultura de elite, na base delas estava o povo, os “irmãos leigos”, que desempenhavam as mais diversas práticas manuais, desprezadas pelos religiosos, mas fundamentais para a manutenção daquelas estruturas.


Outros pontos que marcam profundamente os fazeres têxteis são as questões de gênero e o racismo. A título de exemplo, podemos citar suas origens em tradições trazidas da Europa, por meio das ordenações femininas que aparecem na região, a partir do século XVI na América espanhola, e nas últimas décadas do século XVII e início do século XVIII na América portuguesa. No Brasil, em especial, a adesão tardia se deu por dificuldades criadas pela Coroa portuguesa. Na época, havia poucas mulheres brancas na colônia e se elas se tornassem celibatárias, tornando-se religiosas, não cumpririam sua função de “reprodutoras biológicas”, além de atrapalharem o plano de embranquecimento da Coroa.


Ainda assim, uma demanda patriarcal oposta a criação de um local para onde poderiam ser encaminhadas as filhas “não casáveis” - acabou fazendo com que a Coroa cedesse espaço para as ordenações femininas. Surgiram primeiro os recolhimentos, casas religiosas semelhantes aos conventos, porém livres dos compromissos dos votos solenes e que abrigavam em sua maioria, mulheres negras, indígenas e pobres e, posteriormente, os conventos, estes sim para mulheres com dote e “sangue nobre”. O que no começo eram apenas espaços para reclusão feminina, por influência da Revolução


Francesa, no final do século XVIII, tornaram-se congregações aptas a responder às necessidades da sociedade (eurocêntrica) naquele momento. Neste sentido, as instituições religiosas passaram a ter função de formar o homem para a política, moralidade social e civismo republicano, e as mulheres para serem boas esposas e mães deste cidadão. Período que coincide também com a feminização do catolicismo na França e expansão de suas congregações por novos territórios, incluindo as Américas. Somando-se a isso, no começo do século XIX, chegaria ao Brasil a Missão Artística Francesa, que tinha o objetivo de fundar uma escola de ciências, artes e ofícios no Rio de Janeiro, e influenciou fortemente a cultura nacional.


A partir de então, os franceses passaram a ditar o comportamento das elites, o modelo de vida

social, referências intelectuais, religião, moda e as artes manuais têxteis no país. A renda renascença, por exemplo, muito utilizada por Henrique II, rei da França, chegou ao Brasil com a ocupação do Convento Santa Teresa na Paraíba, feita por religiosas francesas, sendo transmitida às mulheres do sertão paraibano no começo do século XX.


Vale destacar também, que ainda no século XIX foram fundados nas Américas uma série de colégios de freiras, nos quais às alunas cabia o aprendizado das letras, músicas cantadas e tocadas ao piano e trabalhos manuais nos moldes franceses (rendas de agulha, bordados e crochê). Todos dotes desejáveis para uma boa moça: educação literária, musical, moral e também de prendas domésticas. No mesmo período, a disciplina de trabalhos manuais têxteis integrou-se aos currículo escolares brasileiros públicos e particulares, tendo peso significativo na educação feminina das moças de elite e como necessidade do dia a dia das moças pobres, indígenas e negras.


No Brasil, mais um ponto que marca a história das artes manuais têxteis é o ápice do fluxo migratório já vivido pelo país, no fim do século XIX e começo do século XX. Após a aprovação da Lei Áurea, sem nenhuma compensação ou alternativa para os libertos, e com o objetivo de embranquecimento da população, o Estado adotou uma política de imigração e distribuição de lotes de terras para que brancos europeus viessem ocupar o território.


Com isto, o bordado, que havia sido moda entre burguesas abastadas no século XVII, e passou a fazer parte do dia a dia da vida de pequeno-burgueses e operárias nos séculos seguintes, chegou ao país ainda mais forte em diversas regiões do país, junto com o tricô e outras prendas manuais necessárias para a manutenção da casa, além de uma série de outros artesanatos típicos vindos dos países natal dos imigrantes. Tudo isso, somado a um outro valor diverso àquele dado aos trabalhos manuais no país. Nas colônias, enquanto, com orgulho, os homens imigrantes trabalhavam no campo, as mulheres dedicavam-se ao enxoval e à produção de peças para o lar.


O eterno retorno do encontro


Tendo em vista tantas influências externas, todo período de colonização do território brasileiro, Império e começo de República, foi marcado pelo empobrecimento de linguagens e de suas correlações com modos de vida dos nativos e escravizados, sendo isto, consequência do viés utilitário pelo qual os colonos avaliaram estes saberes. Mesmo assim, em grande medida, foram indígenas e negros os responsáveis pela execução, não só de suas próprias técnicas, mas também da transformação e transmissão de técnicas tradicionais europeias no Brasil e em toda a América Latina. Aqui podemos citar artes manuais têxteis europeias que hoje são patrimônios locais, como a renda de agulha que aculturou-se ao Brasil a partir de características próprias e difundiu-se mais que todos os trabalhos manuais entre mulheres caiçaras, ribeirinhas e camponesas

nordestinas - a exemplo da renda de bilro ou o bordado filé - ou o tricô masculino na Ilha Taquile, no Peru.


No mais, é preciso destacar que assim como afirma Ailton Krenak no texto “O Eterno Retorno do Encontro” (1989), não houve apenas um encontro entre as culturas dos povos do Ocidente e as culturas do continente Americano, mas infinitos deles. Neste cenário, se alguns povos indígenas e suas culturas foram dizimadas em 1500 ou 1800, outros povos só entraram em contato com o homem branco no fim do século XX, conservando sua própria sabedoria. Da mesma forma, diversas comunidades quilombolas e espaços de resistência foram mantidos na região, conservando a riqueza de técnicas têxteis artesanais que se mantém vivas por toda a América Latina.





Eu vou fazer um casaquinho de tricot p'ro meu amor

De que cô qu’é?

Ai! Ioiô, de qualqué cô

Prá começar 70 pontos no pescoço

E se fôr grosso aumenta logo 22

78 para o meio das laçadas

em pontos de arroz e as carreiras terminadas

E nessa altura mata 2 de cada lado

muda de agulha para os ombros começar

vai derrubando, faz um meia e um tricot

e só falta arrematar com uma lã de qualqué cô


(Trecho da música “Casaquinho de tricôt”, Paulo Barbosa, 1935)


Voltando às questões de gênero, é impossível não citarmos as marcas do século XX nos fazeres manuais têxteis, que além da associação com a feminilidade, passam também a serem associadas à senilidade a partir da segunda metade do século. Com o desenvolvimento industrial e avanço dos meios de comunicação na América Latina, os têxteis vivem seu tempo áureo e a vocação das mulheres aos trabalhos de agulha passaram a ser difundidos não só nas escolas e redutos religiosos, mas também na mídia. Fato que está explícito na música acima, de autoria de Paulo Barbosa, de 1935, interpretada por Carmen Miranda, e na seção “Trabalhos femininos” e

“Trabalhos de arte feminina” da Revista Feminina de 1915 e de 1922. Presente no ideal de boa moça das primeiras décadas do último século, além de aprender as artes com agulhas em casa e na escola, agora o cuidado com o lar era também difundido na rádio, jornais e revistas, e traduzido nas peças confeccionadas para o outro (filho, marido, casa), e nunca para si.



O imaginário popular da produção manual têxtil no século XX



Revista Tricô e Crochê - 1951

Outra grande novidade da primeira metade do século XX foram as indústrias têxteis, que passaram a produzir fios e linhas para trabalhos manuais, lã e algodão no princípio, e mais tarde popularizando os produtos elaborados com fibras sintéticas vendidas no varejo. Muitas delas também passaram a produzir suas próprias revistas, explicando didaticamente pontos de bordado, tricô e crochê, e publicando as famosas receitas, muitas vezes sem contextualização.


Este é o caso, por exemplo, do tricô de Aran, tricôs trançados e representativos de clãs europeus, que foram totalmente descontextualizados de seus significados no processo de midiatização dos padrões. Uma das publicações mais famosas da época era a Revista Tricô e Crochê, especializada em trabalhos de lã e linhas, e publicada pela Fábrica Santista, cujo objetivo final era a venda das “Lãs Sams”. No mesmo caminho seguiram as propagandas e revistas Pingouim Mon Tricot, da Paramount e Barbante, da Círculo, estas mais recentes. Muito do imaginário que temos hoje, principalmente do tricô, crochê e bordado como uma atividade da vovó, vem justamente desse tempo, que durou aproximadamente até o fim da Segunda Guerra Mundial.


A partir daí as manualidades têxteis sofreram um baque. Entre as décadas de 1940 e 1960, apesar da figura da mulher como cuidadora do lar ainda estar presente, havia uma tensão entre este papel e o papel que ela passava a ocupar com o trabalho na esfera pública. O consumo de produtos que facilitassem a vida, o conforto e a praticidade ficaram em alta e, mais do que nunca, as manualidades têxteis passaram a ser vistas como formas de aprisionamento da mulher, restrita a donas de casa e aposentadas, portanto incompatíveis com o novo ritmo de vida que se configurava cada vez mais urbano. Em paralelo, no campo muitas mulheres seguiram fazendo os artesanatos típicos de sua região para venda e subsistência


Movimentos de contracultura, cultura dos armarinhos e arte contemporânea



Vestido bordado - protesto de Zuzu Angel

Nas últimas décadas do século XX, houve mais movimentações. Desta vez, o cenário político transbordou para a moda e as manualidades têxteis não ficaram de fora. Muito pelo contrário, elas ajudaram a dar forma e voz a uma juventude efervescente que lutava por uma sociedade mais pacífica e libertária, assim como aqueles que sofriam as atrocidades das ditaduras militares na América Latina. Os exemplos mais famosos são sem dúvida as Arpilleras, no Chile, e o desfile dos vestidos bordados de protesto de Zuzu Angel (foto ao lado) na década de 1970.


Já nas décadas de 1980, 1990 e 2000, a estética de artesanatos como crochê, tricô, macramê e bordado passam por um período no qual são considerados cafonas e ficam restritos à “cultura dos armarinhos”, um hobby de mulheres mais velhas que envolvem programas de televisão para afazeres do lar, revistas, fios e cursos, promovidos especialmente pela indústria de fios, que aposta fortemente em materiais de baixo custo e qualidade, mas grande variedade de texturas e cores.


Muitas vezes frequentado por mulheres com pequenos círculos de convívio social, os armarinhos

tornam-se espaços de lazer, distração, afinidades e de promoção de saúde mental. Por outro lado, no mesmo período, iniciativas governamentais e da sociedade civil uniram esforços para valorização dos artesanatos tradicionais e regionais e designers de moda e decoração passaram a utilizar a mão de obra de artesãs para inclusão de peças manuais em seus catálogos, dando novo fôlego a técnicas com renda, tapeçaria e tecelagem.


Na arte contemporânea, o fio torna-se cada vez mais um material válido para produção de obras que passam a entrar em museus e galerias. No fim da década de 1980, Arthur Bispo do Rosário

e Leonilson tornam-se expoentes no uso do bordado para arte e expressão no Brasil.