A Roupa como toque - parte 1

Moda é comunicação e expressão. Teria a roupa outras funções?


A frase que eu mais escuto para justificar a existência da moda é de que ela é comunicação, expressão. Já que não vamos andar pelados por aí, e que tudo é comunicação, então porque não escolher bem a mensagem que queremos passar?


Não discordo, acho mesmo que, quando temos essa possibilidade, ao fazermos escolhas na hora de nos vestirmos, dizemos muito sobre nós. No entanto, em ocasiões assim, estamos mostrando menos sobre nossa real expressão, e mais sobre aquilo que desejamos que pensem da gente. Em um mundo estetizado e apegado ao efêmero, é preciso gastar mais tempo parecendo aos outros, do que buscando aquilo que satisfaria a si mesmo em relação com o todo.


Dito isto, nesta quarentena tenho aberto mão desta que é a mais aparente função da roupa, o “parecer”, e que está intrinsecamente associado ao nascimento da moda - como a leitura do livro “O Império do Efêmero” de Lipovetsky tem deixado cada vez mais claro para mim. Tenho então, escolhido olhar para duas outras importantes esferas da vestimenta: a roupa como modelagem ou acolhimento.


No ambiente doméstico, me liberto da obrigação de adequação ou rebeldia diante do grupo social que pretendo agradar, ou chocar, e posso usar a roupa com instrumento de molde do corpo. Neste caso,incluo tirar o pijama para trabalhar ou vestir roupas confortáveis para praticar exercícios.


Eu tenho minhas dúvidas se deveria ser assim, se as formas seriam tão necessárias (a priori), para realizarmos as atividades do dia a dia, caso nossos desejos e tempo não fossem coordenado pelo relógio, distrações e tecnologias. Ainda assim, entendo que como estamos organizados hoje, a forma seja imprescindível para manutenção da ordem social, incluindo as roupas.



Pensando ainda que a casa tem ocupado espaços que antes não eram dela, como o do trabalho e da escola, e algumas vezes até de hospital (considerando aqueles que estão isolados no isolamento), e que ela tenha sido privada das relações externas que as compunham, faz mais sentido para o nosso cérebro (extremamente analítico), rituais de organização e distinção, que incluem roupas para cada ocasião, mesmo que tudo ocorra dentro de um único cômodo.Por outro lado, há dias em que, mesmo com uma série de obrigações, a única vontade que temos é a de vestir pijamas, o que, para nossa sorte, a casa permite.


Neste caso, pijamas, roupas velhas, ou qualquer peça que nos traga conforto, querem dizer mais coisas do que só sobre a nossa preguiça. A verdade é que em um momento de extrema fragilidade humana, se não estamos em uma frente de batalha, o que talvez exigisse de nós uma armadura (ou EPIs), então queremos acolhimento. E se ele não pode vir de nossos pais ou amigos, então que os tecidos possam nos acolher. Nosso desejo é por toque e, por isso, de todas as funções da roupa, esta é a minha preferida.


continua...

(04/05)

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