A Comunicação está em ruínas?[URDUME número 0]

Uma experiência de desconexão


"Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. (...). Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro.”

Manoel de Barros



A humanidade nunca teve tantas ferramentas de comunicação e, no entanto, não estamos comunicando nada bem. No entorno das nuvens tecnológicas, pairam as palavras abandonadas, aquelas, descritas por Manoel de Barros como as “sem ninguém dentro”. Falamos muito, escutamos pouco e, com o uso cada vez mais extensivo das redes sociais, deixamos de lado tudo que se imprime no corpo e é parte integrante da comunicação. As nossas expressões e diálogos estão pobres de afeto. Afeto, à maneira de Espinosa, como aquilo que nos afeta (simultaneamente no corpo e na mente) e nos move, positiva ou negativamente. Nossos afetos estão em ruínas.

Isso porque, apesar de aparentemente estarmos constantemente expressando os nossos afetos nas redes sociais, relatando nossas percepções e experiências, fazemos isso de forma incoerente. Sermos pessoas afetivas demanda tempo e observação sobre as nossas subjetividades, tudo que não temos em um ambiente definido pelo consumo de tempo, produtos, e até pessoas, como o das redes sociais.

Trazendo essas informações eu não desejo demonizar essas mídias. Na minha dissertação de mestrado, apresentada à Faculdade de Medicina da USP em 2018, constato como o encurtamento de distâncias, a circulação de informação e a conexão entre os pares, proporcionados pelas redes sociais, trazem benefícios aos pais de crianças com síndrome de Down, no contexto da condição de genética de seus filhos.

No entanto, nessa mesma pesquisa, constato que esse mesmo ambiente virtual, que facilita conexões, também contribui para apartá-las. A “amizade” digital está a sempre a distância de um clique. Podemos deletar ou adicionar pessoas sem precisarmos passar pelos constrangimento das relações presenciais

Sem nos darmos conta, na maioria das vezes, ao pensarmos que estamos fazendo um uso afetivo do Instagram, por exemplo, ao contarmos aos nossos seguidores alguma experiência pessoal de fragilidade, na verdade estamos apenas reproduzindo hábitos de consumo nas nossas relações. O que, por mais que a publicidade tente nos convencer do contrário, não passa pelo lugar do afeto descrito por Espinosa.

Um mês fora das redes

Diante dessas conclusões, no último mês de outubro, resolvi fazer o teste de ficar fora das redes sociais. Racionalmente, eu já vinha elaborando um pensamento crítico sobre o tema, mas, como disse acima, sabia que, para entender realmente como o digital me afetava, eu precisava de tempo e desconexão.

Passei 30 dias longe das redes. O que nas primeiras semanas me gerou uma sensação de alívio, na segunda para a terceira semana me parecia mais com um afeto triste. Passei por momentos de profunda estranheza, afinal, racionalmente eu tinha certeza de que aquele distanciamento também estava me fazendo bem. Foi então que, me observando e observando o meu entorno, vi que durante esse período minha interação social diminuiu pelo menos 85% do seu total.

A constatação foi dura: me dei conta de que havia desaprendido a me relacionar sem extensões. Logo, fiquei triste, porque por mais vazias que fossem aquelas relações virtuais (sem presença corporal), eram elas que eu tinha. Por outro lado, a alegria vinha de, ao me afastar, descobrir algo valiosíssimo sobre mim: eu não sabia como interagir com os corpos próximos a mim no dia a dia (vizinhos, atendentes, colegas, etc.) sem superficialidade.

Compreendendo isso, me percebi em um impasse: se “lá dentro havia mente sem corpo”, aqui fora “estava um corpo sem mente”. Mais do que estar on ou off-line, era preciso recuperar a inteireza do ser e, por conseguinte, das minhas relações. De fato, como eu deduzia no campo da razão, o corpo é o cenário do meu Eu, não posso ignorá-lo, No entanto, para que isso aconteça, eu preciso estar em cena. Caso contrário, a trama não acontece, independentemente do palco da apresentação.

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