A MATEMÁTICA DOS AFETOS

Editorial publicado na Revista URDUME 04

por Estefania Lima

Nada pode ser mais complexo do que a matemática dos afetos. São tantas as variáveis dessa equação, que não consigo imaginar uma representação física melhor para ela do que um emaranhado infinito de fios. Talvez, por isso, os fios e as linhas sejam pauta recorrente no

discurso sobre as emoções. A trama, a malha, os fios e as fibras são como os afetos, permeando e entrelaçando as nossas histórias.

O que fazemos com os nossos fios e afetos resultam na nossa expressão, aquilo que a sensibilidade variável de cada um transforma em formas pessoais e subjetivas. Começamos a produção desta quarta edição acreditando que falaríamos sobre afetos, mas a encerramos com a certeza de tratar sobre a sua elaboração.

Elaborar e ressignificar a montanha de afetos controversos que nos tomaram em 2019 parece ter sido a feliz escolha da maioria das personagens que preenchem as narrativas desta publicação. Afinal, se a arte é uma das belas formas de darmos luz aos nossos afetos, o fio é, sem dúvida, o mais belo material.


Essa é também nossa última edição do ano. Dez meses depois do lançamento da Urdume #01, encerramos nossa primeiro ciclo de vida com a sensação de devir cumprido. Um tornar-se a ser que obedeceu às leis da matemática afetiva, traçando um tipo único de comunicação, que abrange o fazer com os fios e reflexão.

Fomos movidos por encontros. Fizemos amigos, dividimos perrengues, recebemos ajudas e fechamos bonitas parcerias. Nesta edição destaco os encontros com a professora Ana Melech, e a parceria com a Universidade Tuiuti do Paraná, Thalita Carvalho e a revista Casa de Colorir, e Mari Valadão, responsável pela nova seção da Urdume, Mulheres de Fibra, realizada em parceria com a Rede Asta.
Por isso, só me resta agradecer. Se, há quase dois anos iniciei essa jornada afetiva pelos fios, motivada por uma perda gestacional, hoje celebro o ecossistema de vidas ao redor da Urdume e compreendo a sua razão afetiva.


Curiosamente, prestes a fechar essa edição, fui agraciada com a leitura de um artigo onde encontrei as doces palavras da pesquisadora carioca Mariana Guimarães 1 :


“Há, no ato de bordar, tecer e costurar, um silenciar das mãos em seu mais profundo movimentar-se, num ir e vir que nos coloca em contato com uma consciência ancestral e nos ensina a dimensão e a potência transformadora de conduzir uma linha no espaço, compreendendo o poder das mãos, da linha e do fio, que liga e religa o ser humano à sua mais tenra idade, no momento gestacional onde mãe e bebê são ligados pelo fio umbilical, o fio da vida, que é cortado para uma nova vida começar.”


Todo meu afeto à Nathália Abdalla, Paula Melech, às colunistas (Vil, Cris, Marie, Estefânia e Dani), às jornalistas (Iris, Estela e Cris), aos colaboradores de todas as edições, leitores, e em especial ao Gustavo Seraphim, meu companheiro de trabalho e de vida.

Curitiba - Brasil

www.urdume.com.br