É ARTE NA RUA, É MANIFESTO, É INTERVENÇÃO

Yarn bombing, bombardeio de fios, grafite em tricô, ativismo de lã. Muitos são os nomes dados ao movimento que espalha mensagens de mulheres pela cidade por meio de fios coloridos

Por Iris Alessi

Cobrir paredes, objetos, monumentos e prédios com crochê e tricô é um tipo de manifestação artística que já tem nome: Yarn Bombing (ou bombardeio de fios, em livre tradução). O movimento, que ganhou até um dia Internacional em 11 de junho, diz muito a que veio apenas pela origem de seu nome. Bombing é uma palavra retirada do vocabulário do grafite e significa uma intervenção feita rapidamente, normalmente com letras mais simples e eficazes e em lugares não autorizados. Sim, estamos falando de uma intervenção feita com fios e com tom de ativismo, de provocação do olhar sobre os espaços urbanos.
 

Considerada a fundadora da “guerrilha do tricô” (definição tirada do site www.magdasayeg.com e em tradução livre), a norte-americana Magda Sayeg começou o movimento em 2006, no Texas, quando tricotou capas em azul e rosa para a maçaneta da porta de seu ateliê. E, assim, inspirou este ataque de arte pela cidade. Em 2009, o movimento ganhou força e se espalhou pelo mundo. Ainda na biografia em seu site, Magda conta o que a fascina nestas intervenções. “A exploração da mudança ambiental me motiva: provocar o mundo a ser um lugar mais desafiador, não convencional e interessante” (em tradução livre).

Trata-se, portanto, de uma maneira de se expressar que ocupa espaços cujas intervenções visuais corriqueiras, como o grafite,costumam ser masculinas.

 

Os fios coloridos contam histórias pela ruas

No Brasil, diversas artistas e artesãs fazem parte deste movimento e compartilham essa vontade de usar as cidades seja para expressar o que pensam, para resgatar a importância das manualidades ou para transformar os espaços públicos em galerias de arte a céu aberto, acessíveis, provocadoras.


Entre elas, está a artista têxtil Anne Galante, conhecida por seus enormes trabalhos em crochê. Para ela, levar as artes manuais às ruas é uma maneira de contar a história do crochê em uma narrativa atual. As primeiras intervenções de Anne, em 2011, surgiram como esguichos de crochê aplicados nos muros de São Paulo, que deram nome ao projeto Nem todo splash é tinta, pois quando vistos a certa
distância parecem pinturas, mas de perto percebe-se que são crochês. “O principal objetivo foi colocar o crochê num lugar novo, para sempre chamar atenção para a importância das artes manuais”, conta.

Os trabalhos que ela faz junto aos grafites da cidade surgiram dos sonhos da artista, que era apaixonada por essa estética e tinha vontade fazer parte do movimento, mas do jeito dela. “Eu queria colocar minha arte na rua, bem democrática, para que todos pudessem ver e apreciar nessa maravilhosa galeria a céu aberto que é São Paulo”. Passou, então, a fazer interferências nos Anne Galante e obra feita para o evento FestA - festival do grafites, mas usando as agulhas como pincéis. “Aqui, tudo é feito com as próprias mãos, com toque espirituoso, refletindo a atitude urbana com o toque artesanal. Acho poético as cores do crochê contrastadas com o cinza da argamassa”, explica Anne.


Além de artista, Anne também é designer de moda e, ao lado da irmã, é dona da marca Señorita Galante, que desenvolve roupas e peças de decoração feitas à mão. “Eu faço uso criativo de tudo ao meu redor e sempre tento manter a liberdade de viver na estrada, sem impor muita lógica
no trabalho final, trabalhando em cima do improvável e fazendo a ressurreição dessas técnicas milenares”, conta ela.

Foi também em São Paulo que a artista Karen Dolorez começou a desenvolver seu trabalho e a levar o crochê para as ruas. Nascida em Bauru, no interior do estado de São Paulo, Karen aprendeu a crochetar quando ainda era pequena, uma atividade que fazia em família. E, ao mudar para São Paulo, sentiu vontade de retomar essas vivências. Em suas pesquisas, conheceu movimentos pelo mundo que envolviam crochê, tricô e bordado, mas, para ela, esse movimentos apareciam de maneira diferente, saindo do formato de artesanato como algo que é usado apenas dentro de casa.

 

A primeira intervenção de Karen, foi em parceria com um amigo grafiteiro. “Fazer esse trabalho em mural foi muito diferente de tudo que eu já tinha feito, tanto na troca durante a execução quanto depois e tudo o que isso rendeu. Na sequência, fiz um trabalho que foi um coração cortado no meio com a frase ‘Onde teu medo dói?’”, conta a artista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trabalho que teve grande repercussão, pois as pessoas passaram a responder à pergunta feita na intervenção. “E essa resposta das pessoas me motivou demais a continuar meu trabalho na rua”, lembra Karen, que hoje também expõe suas obras em galerias. Outra brasileira que está colocando suas ideias nas ruas é a artista gaúcha Letícia Matos, que criou o projeto 13 Pompons em 2012 e começou as intervenções quando, após ensinar amigas a fazerem tricô e pompons, elas levaram o resultado dessa aula (13 pompons coloridos em lã) para uma árvore em São Paulo.

 

A partir desta primeira ação, Letícia seguiu com uma intervenção por dia pelos 13 dias seguintes e não parou mais. Crochetar e fazer tricô na capital paulista eram, originalmente, os jeitos de relembrar os momentos junto à mãe na capital gaúcha. “Nunca tive o objetivo de ter um projeto de intervenções, se tornou um projeto depois que as intervenções já estavam nas ruas. Fui deixando as coisas acontecerem e dei continuidade.

E me sinto feliz por dedicar parte do meu tempo nisso”, revela. Espalhados pelas ruas de São Paulo e por outros cantos do mundo, os trabalhos de Letícia são os resultados de mãos inquietas. “É minha forma de expressão, não me imagino sem fazer alguma técnica manual, parece que as mãos não conseguem ficar paradas”, comenta.

A livre manifestação das ideias pelas mãos

 

A vontade de expressar-se foi o que moveu essas três artistas e o que move também Nathália Abdalla, que encontrou nas artes manuais a força para uma virada profissional e de estilo de vida. “O crochê, para mim, representa mais do que uma técnica, ele é o meio que encontrei para comunicar ao mundo o que de melhor trago dentro de mim”, conta ela. Designer de formação, Nathália instala portais em crochê pela cidade de São Paulo com a proposta de falar sobre o tempo das mãos, da presença, da contemplação. “Tirar o crochê das peças de casa, como tapetes, e levá-lo para cima, é a maneira que vejo de honrar todas as mãos crocheteiras que vieram antes de mim.

Quero criar espaços de cor e pausa em meio ao cinza e ao barulho que nos desconectam do que há de mais belo em ser humano: a nossa capacidade de criamos com nossas próprias mãos uma vida boa de se viver”, explica. A expressão também foi o estopim do trabalho de Karen. “Foi muito diferente este processo porque eu simplesmente comecei a colocar para fora o que queria dizer e senti uma identificação das pessoas, do público, tanto na rua quanto na internet.

E ali eu percebi que, ao falar sobre temas que eram muito meus e importantes para mim, eu também estava falando dos outros. Acabei encontrando pontos em comum”, conta. A arte de Karen está ligada às questões de gênero, machismo, ao corpo, entre outros temas. No geral, são assuntos que trazem algum incômodo a ela. “A maior parte do que eu tenho feito para a rua traz temas que eu quero expressar independentemente de qualquer coisa, e aí eu faço o trabalho e coloco em lugares em que acredito que aquela arte vai caber”, explica. Ao lado das causas, as artes manuais ganham lugar de destaque, fazendo sentido que sejam discutidas novamente, assim como seu lugar de importância.

Ruas, causas, sentimentos na criação


Como chegar a resultados finais tão expressivos e cheios de significados? Para Karen, a inspiração para um novo trabalho surge por dois caminhos. O primeiro acontece quando a artista quer expressar algo específico. “Se tem alguma coisa que está me incomodando bastante eu faço o trabalho e, depois, vou ver onde eu quero colocá-lo”. A segunda maneira acontece quando o espaço surge antes da ideia. Nesse caso, a artista busca criar algo para aquele espaço disponível. Então, as inspirações e a criatividade surgem a partir das pesquisas e leituras que faz.


Por compor suas intervenções com os grafites de São Paulo, a cidade e toda a sua cultura trazem grande diversidade para as inspirações de Anne, mas só a vida urbana não basta. “Sou Paulistana de corpo e alma, e São Paulo, essa metrópole que é um passarela da diversidade, da boemia, da moda de rua, me impressiona sempre com seus rios de carro e tribos diversas que nela habitam. Mas não nego que preciso me refugiar de tempos em tempo no mato para renovar as energias e manter acesa aquela inspiração arrebatadora que nunca pode acabar, que é a paixão pelo desenvolvimento do novo, fazendo a minha imaginação se expandir a um passado antigo, misturado a um artesanato refinado e um mundo de faz de conta”, revela Anne.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já o caminho criativo das intervenções de Letícia parte também do sensorial do próprio material que será usado. “Eu sempre começo pelas cores. Separo aquelas que quero usar no trabalho, pesquiso algumas tramas e instintivamente vou definindo as combinações e criando os padrões que vou repetir na peça”, conta. “Acredito na identidade do meu trabalho e no que ele significa para mim, então minha criatividade vem daí. Não me pressiono em relação à criatividade, nem tenho a pretensão de ter um trabalho mais criativo ou melhor do que o de ninguém. Me preocupo em evoluir, me reinventar, sempre comparando o meu trabalho hoje com o que já fiz há um tempo”, completa Letícia.


Arte com propósito e feita para todos


As tramas com os fios coloridos atraem os olhares das pessoas, transformando as ruas em grandes galerias de arte, e, mais que

isso, mudando a maneira das pessoas de se conectarem com os espaços públicos. “Pode-se dizer que intervir na cidade é uma forma de não-musealização da arte. A arte urbana não limita a sociedade, nem sequer faz acepção de pessoas. Ela não escolhe certo tipo de público ou classe social. A rua, a pele da cidade, abrange a todos como espectadores”, aponta Anne. “É a minha vida, é a minha luta, é o que eu acredito e posso fazer para conscientizar e inspirar mais pessoas para o mundo artesanal, com menos lixo e mais significado”, defende ela.


Esse processo de interação do público com a arte começa mesmo antes da obra estar completamente pronta e instalada. “Em geral, quando estou colocando alguma intervenção na rua as pessoas param, conversam, perguntam, elogiam, tanto no Brasil como no exterior”, conta Letícia. Para ela, o resgate da memória de alguém da família que faz ou fazia essas atividades tem papel importante na conexão das pessoas com as artes nas ruas. “Esse tipo de intervenção traz uma sensação de carinho, zelo, dedicação.

Pensamos na cidade como nossa, nos sentimos parte dela, nos faz refletir em como estamos interagindo com ela”, completa. Seja qual for o nome dado a estes ataques de arte poéticos e fortes pelas cidades, expressar-se pelas ruas, fazer intervenções com os
fios é muito mais do que tirar o crochê e o tricô de dentro de casa: é manifestar-se por todos e para todos, é falar de causas, é usar as

mãos e o coração para posicionar-se em um mundo que cada vez mais nos exige isso.

Curitiba - Brasil

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