FIO DA CONVERSA

O Fio da Conversa é uma iniciativa de pesquisa e prática sobre as artes manuais têxteis como recurso de mediação de diálogos  sobre masculinidades e relações de gênero. Culturalmente o tricô é visto como uma prática feminina e doméstica e, partindo desse pressuposto, Gustavo Seraphim - coordenador do projeto - busca investigar o impacto do aprendizado e prática das artes manuais têxteis nas identidades vinculadas às representações de masculinidades de homens profissionais da área e participantes do 'Fio da Conversa' - grupo de prática,  encontros quinzenais de homens para prática de tricô e estudo sobre questões de gênero. 

 

 

Um fazer "feminino"

O tricô é visto como uma atividade doméstica e feminina desde o século XIX, quando, a partir da divisão do trabalho por gênero, tornou-se um hobby de mulheres da classe média. Enquanto os homens trabalhavam fora de casa e suas esposas, chamadas de“anjos do lar”, eram admiradas pela manutenção doméstica e cuidados com marido e filhos. Desde então, o tricô, ao lado de outras artes manuais têxteis, tornou-se um passatempo que atendeu aos ideais de feminilidade e domesticação, sendo, por isso, marginalizado no grupo das artes.

Entretanto, apesar da associação do tricô com o universo feminino, a técnica, que acompanha diferentes períodos da história, é milenar e já foi interpretada de diversas formas durante a história, acompanhando mudanças culturais, avanços tecnológicos, alternâncias econômicas e guerras, com a participação de homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos, como na Segunda Guerra Mundial (Zeng, Chen e Rahman, 2019).

Atualmente, além dos movimentos e iniciativas que têm como propósito a valorização dos fazeres manuais têxteis, destacando-as como uma linguagem iconográfica e coletiva de potência feminista, ressaltando inclusive as qualidades artísticas do material, há também uma reapropriação das práticas têxteis manuais por parte dos homens, que têm utilizado os fios como forma de expressão artística, complemento de renda e ferramenta de diálogo para questionamentos masculinidades e relações de gênero. 

Nos Estados Unidos há retiros de tricô exclusivos para homens. No Chile e na Argentina, os “Hombres Tejedores” fazem intervenções públicas onde tricotam vestindo ternos pretos e utilizando fios rosa, com o intuito de contestar estereótipos de gênero. No Brasil, o grupo "Guri bom de Agulha" se reúne no Rio Grande do Sul para tricotar, crochetar, bordar e dialogar sobre assuntos variados. Em Curitiba, eu coordeno o grupo Fio da Conversa, iniciativa que surgiu dentro da Revista Urdume - publicação impressa e digital sobre artes manuais têxteis, expressão e autoconsciência -, editada pela minha companheira,  e que promove ciclos de encontros para aprendizagem de tricô e conversas sobre masculinidades na cidade desde abril de 2019.

Motivado por minhas experiências pessoais com a produção de peças de tricô para amigos homens -  e a recepção desses presentes por parte deles - sempre surpresos com esse tipo de expressão homoafetiva, somado à minha maior permanência no espaço doméstico a partir do nascimento do meu filho, decidi criar um grupo para o ensino de tricô e debate sobre os entraves de representação e identificação das masculinidades em Curitiba. Os encontros iniciaram-se em abril de 2019 e duraram o decorrer de todo ano, presencialmente (em 2020, devido a pandemia, passaram a acontecer online). Paralelo a isso, realizei entrevistas com 27 homens que trabalham com a produção de peças ou obras de manualidades têxteis pelo mundo (Brasil, Chile, Estados Unidos, Canadá, Portugal, Noruega, Itália, Taiwan, Japão, França), para uma matéria na Revista Urdume, e me chamou atenção o posicionamento afirmativo da maioria desses homens como artistas, em descrédito ao título de artesão, a pouca reflexão deles a respeito das questões ligadas às questões de gênero, mesmo trabalhando com afazeres ditos femininos, e o destaque dado a eles na mídia pela execução de tarefas feitas exaustivamente por mulheres ao longo dos séculos sem a mesma visibilidade. Eu mesmo tornei-me capa do jornal Folha de São Paulo no dia dos Pais de 2019 por causa do projeto do Fio da Conversa. 

Diante desse contexto nitidamente desigual e vislumbrando o potencial do tricô como recurso material de mediação para debates sobre questões de gênero e masculinidades, interesso-me em compreender o impacto dessas práticas na vida daqueles que foram iniciados a elas já sobre a ótica reflexiva a respeito das implicações que envolvem as intersecções da prática com seu contexto social e político. 

Sendo assim, este projeto tem por intuito investigar o impacto do aprendizado do tricô manual nas identidades vinculadas às representações de masculinidades de homens participantes dos encontros do Fio da Conversa, realizados entre abril e dezembro de 2019, levantando-se a hipótese que o aprendizado do tricô, urdido em meio a conversas coletivas sobre gênero, feminismo e masculinidade, possa contribuir para a negociação das representações individuais de masculinidades.

Espera-se que o resultado dessa pesquisa possa contribuir para o campo de pesquisas já realizadas sobre relações de gênero e representações de masculinidades, destacando-se quanto ao objeto e prática de mediação material utilizado para a investigação, o tricô, ainda pouco explorado no Brasil, e, dessa forma, colaborar na ampliação dos estudos na área de cultura material. 

Curitiba - Brasil

www.urdume.com.br