Moda é comunicação e expressão. Teria a roupa outras funções?


A frase que eu mais escuto para justificar a existência da moda é de que ela é comunicação, expressão. Já que não vamos andar pelados por aí, e que tudo é comunicação, então porque não escolher bem a mensagem que queremos passar?


Não discordo, acho mesmo que, quando temos essa possibilidade, ao fazermos escolhas na hora de nos vestirmos, dizemos muito sobre nós. No entanto, em ocasiões assim, estamos mostrando menos sobre nossa real expressão, e mais sobre aquilo que desejamos que pensem da gente. Em um mundo estetizado e apegado ao efêmero, é preciso gastar mais tempo parecendo aos outros, do que buscando aquilo que satisfaria a si mesmo em relação com o todo.


Dito isto, nesta quarentena tenho aberto mão desta que é a mais aparente função da roupa, o “parecer”, e que está intrinsecamente associado ao nascimento da moda - como a leitura do livro “O Império do Efêmero” de Lipovetsky tem deixado cada vez mais claro para mim. Tenho então, escolhido olhar para duas outras importantes esferas da vestimenta: a roupa como modelagem ou acolhimento.


No ambiente doméstico, me liberto da obrigação de adequação ou rebeldia diante do grupo social que pretendo agradar, ou chocar, e posso usar a roupa com instrumento de molde do corpo. Neste caso,incluo tirar o pijama para trabalhar ou vestir roupas confortáveis para praticar exercícios.


Eu tenho minhas dúvidas se deveria ser assim, se as formas seriam tão necessárias (a priori), para realizarmos as atividades do dia a dia, caso nossos desejos e tempo não fossem coordenado pelo relógio, distrações e tecnologias. Ainda assim, entendo que como estamos organizados hoje, a forma seja imprescindível para manutenção da ordem social, incluindo as roupas.



Pensando ainda que a casa tem ocupado espaços que antes não eram dela, como o do trabalho e da escola, e algumas vezes até de hospital (considerando aqueles que estão isolados no isolamento), e que ela tenha sido privada das relações externas que as compunham, faz mais sentido para o nosso cérebro (extremamente analítico), rituais de organização e distinção, que incluem roupas para cada ocasião, mesmo que tudo ocorra dentro de um único cômodo.Por outro lado, há dias em que, mesmo com uma série de obrigações, a única vontade que temos é a de vestir pijamas, o que, para nossa sorte, a casa permite.


Neste caso, pijamas, roupas velhas, ou qualquer peça que nos traga conforto, querem dizer mais coisas do que só sobre a nossa preguiça. A verdade é que em um momento de extrema fragilidade humana, se não estamos em uma frente de batalha, o que talvez exigisse de nós uma armadura (ou EPIs), então queremos acolhimento. E se ele não pode vir de nossos pais ou amigos, então que os tecidos possam nos acolher. Nosso desejo é por toque e, por isso, de todas as funções da roupa, esta é a minha preferida.


continua...

(04/05)



Inspirada na Semana Fashion Revolution 2020 nasce a coluna "Fios e Ritos"



Quem acompanha a Revista Urdume desde o início sabe que ela nasceu do meu íntimo, a partir de um projeto chamado Fios e Ritos. Aliás, a edição zero da Urdume (imagem ao lado) - publicada apenas digitalmente- ainda carregava esta alcunha como subtítulo.


A frase de apresentação do projeto: "fios são a metáfora da vida, ritos o que a torna sagrada" é o resumo de como passei a enxergar a vida após me encontrar por meio do tramar das fibras, mas - principalmente - sobre as infinitas possibilidade que se abriram em meu imaginário desde então.


Desta forma, a Revista Urdume tornou-se a expressão desse meu desejo, a investigação dos os fios e ritos, sejam eles reais ou metafóricos.


Ainda assim, com o decorrer do dia a dia da revista, e suas demandas de manutenção: envio, pagamento, divulgação, etc., diminui intensamente meu processo de pesquisa, mas, principalmente, de escrita e compartilhamento dos meus estudos e conclusões.


No entanto, no último mês, com a chegada do Covid-19, e as transformações que esta doença trouxeram para vida de todos nós, fui obrigada a rever a periodicidade da revista - e sua forma de produção - para continuar, ao mesmo tempo que fui oportunizada a retornar com minhas pesquisas e compartilhá-las.


Inspirada pela a chegada da Semana Fashion Revolution deste ano, resolvi expor meus pensamentos no blog da URDUME, em uma coluna chamada Fios e Ritos, sobre assuntos que perpassam a sociedade contemporânea, e estão ligadas por um fino fio rompido a partir do nosso comportamento de indivíduos-consumidores. Como diria, o já falecido, filósofo zygmunt Bauman, falarei sobre os “hábitos altamente mutáveis de nossa sociedade cada vez mais “plugada”, ou, para ser mais precisa, sem fio.”


O primeiro texto entra no ar hoje às 18h com os temas consumo e composição.


Estefania Lima, idealizadora e editora da Revista Urdume


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Antes de questionarmos nossas "escolhas" de compra, avaliando a composição dos fios que consumimos, precisamos refletir sobre as nossas motivações e condicionamentos.


Quando fiquei sabendo que os temas “consumo”, "composição",” condição de trabalho” e “ações coletivas” seriam os pilares de diálogo da Semana Fashion Revolution 2020, logo pensei como seria importante, neste espaço, aprofundar o diálogo sobre os dois primeiros temas. Afinal, nós da comunidade artesanal, estamos sempre correndo o risco de, ao nos imaginarmos a certa distância da lógica industrial, estarmos ainda mais próximos dela. Muitas vezes, ao reduzirmos nosso consumo de roupas prontas, já que nós mesmos podemos fazê-las, deixamos o consumismo de peças de vestuário para nos tornarmos ávidos consumidores de insumos, e pior, de composições questionáveis.


Se fôssemos bons observadores, ao entrarmos em um armarinho, faríamos um esforço para ir além dos impulsos emocionais, aos quais somos acometidos quando ficamos frente a frente com uma enorme variedade produtos (leia-se novelos de linha, meadas, agulhas e apetrechos mil). Ao ler os rótulos, tocar nos objetos, e descobrir suas composições, técnica e social, compreenderíamos rapidamente o motivo de um novelo de lã acrílica produzido na China, ou na Turquia, custar dez vezes menos do que uma meada de lã de ovelha vinda do Rio Grande do Sul.



A verdade é que, apesar da nossa produção ser artesanal - e esse tipo de atividade ser uma oportunidade ímpar para reflexão sobre consumo - a origem de quase 100% dos insumos que utilizamos seguem uma lógica industrial que é incompatível com o tempo da vida e da natureza. Além das novas coleções de novos fios a cada estação, a maioria esmagadora delas são feitas de plástico (acrílico, nylon, viscose, etc.), não eximindo nenhum de nós da responsabilidade sobre os 342 milhões de barris de petróleo utilizados por ano para a produção de têxteis.*


É claro que essa não é e não pode ser uma responsabilidade apenas do consumidor. Como disse acima, essa é a realidade vigente do mercado e, as poucas marcas que prezam e vêm trabalhando com uma cadeia responsável de produção enfrentam todos os entraves e dificuldades que os pequenos e médios empreendedores lidam para disponibilizar e tornar acessível seus produtos (afirmo por conhecimento de causa). Do outro lado, as grandes empresas estão mergulhadas neste velho sistema até o pescoço e abandoná-los requer iniciativa, tempo e coragem.


Mas hoje, não entrarei neste mérito, meu desejo aqui é falar como você, caro leitor - que também tem suas limitações - mas pode, como pessoa, contribuir para uma mudança no coletivo (sem dar a entender que isso seja fácil, prático e rápido, pois não é).


Vivemos tempo complexos, nada é preto no branco, não existe mais a ideia dos maus versus os bonzinhos. Se por um lado isso é bom, já que é da natureza do ser humano ser complexo, isso também torna tudo mais difícil, dificultando a apreensão e decodificação das nossas próprias contradições expressas em tudo que nos cerca.


No cenário em que nos encontramos, se não nos mantemos atentos, tornamo-nos presas fáceis de uma rede que não é comandada por um grande vilão, a quem precisamos combater, mas sim uma teia - tecida à várias mãos - de raízes fortes e caráter estrutural. É como se vivêssemos em um enorme novelo lã, daqueles bem cheios de nós, optando sempre pela dualidade de: ou deixar aquele fio como está ou apelando para a violência do corte brusco de uma tesoura, quando sabemos que só mãos e mentes pacientes são capazes de desatá-los.


Eu sei que sempre parece mais "fácil" deixarmos as coisas como estão, e essa é a nossa saída

mais recorrente, apesar de nos incomodarmos com os nós. Como dizia o filósofo Michel Foucault, estamos inseridos em “uma sociedade que (...) denuncia os poderes que exerce, e promete liberar-se das leis que a fazem funcionar”. Ainda assim, sendo esta a vida - e não tendo um novo novelo à disposição para compra, para simplesmente recomeçar - vale à pena tentarmos desembolar antes de recorrer à tesoura. Caso contrário, ou morremos aos poucos, ocultando as nossas próprias angústias (e mergulhando na falsa alegria de possuir milhares de novelos e fios) além de ignorar as dos outros (fechando os olhos para a composições e forma de produção desses novelos), ou morremos e matamos de vez com o corte seco da tesoura (nos isolando em mundos de radicalismos e suposta superioridade).


Trocando em miúdos, quero dizer que antes de (uma possível) mudança, é preciso a aceitação. E aceitação se baseia no desejo de encaramos a realidade, sem romantizar ou demonizar, mas com a consciência sobre as artimanhas da rede, e atentos para que a nossa subjetividade não seja feita de opções de compra ou que a materialização da nossa verdade interior se resuma as escolhas materiais.


É por isso, que não vou, e não quero, terminar este texto lhe oferecendo como solução uma nova opção de consumo - nem quero que este texto chegue a público com um dedo em riste na direção de ninguém. Mas pelo contrário, o que desejo para você, e para mim, e que tenhamos consciência deste tear onde se desenrolam nossos fios. Que saibamos o tanto que ele exige de nós, ao nos transformar em consumidores e produtos e que, ainda assim, mesmo a mercê desta trama, possamos nos lembrar que possuímos um fio, uma linha guia, que nos orienta e nos liga aos outros, fazendo com que nós nos reconheçamos como parte da natureza.


Talvez assim sejamos capazes de manter a coerência, não diante do mercado, mas da vida, tenhamos a tranquilidade para refutar, o que hoje nos é apresentado como liberdade: a multiplicidade de escolhas, doa a quem doer.


Como os antigos já diziam, nem tudo que reluz é ouro, e nos anos de 1970 Foucault já questionava “em uma sociedade como a nossa, onde os aparelhos do poder são tão numerosos, seus rituais tão visíveis, e seus instrumentos tão seguros, por que reduzir o poder de dominação aos procedimentos de interdição?", ou seja, seria inocente de nossa parte, reduzirmos o controle externo a nós a uma falta de escolha.


Vale manter à atenção.


Referências bibliográficas:


*Ellen McArthur Foundation, 2017 citado por Fashion Revolution Brasil

A Vida para o Consumo - A Transformação das Pessoas em Mercadoria, de Zygmund Bauman

História da Sexualidade I - A Vontade de Saber, de Michel Foucault


Curitiba - Brasil

www.urdume.com.br