Esse texto faz parte de um série sobre o livro "O Artífice", de Richard Sennett, que tem por objetivo a compreensão da mensagem na obra, e sua aproximação com as artes manuais têxteis.



No primeiro capítulo do livro "O Artífice", Richard Sennett começa definindo quem é o artífice:

  • Aquele que se dedica à arte pela arte (seja ele um carpinteiro, um técnico de laboratório ou um maestro);

  • Aquele cujas atividades têm caráter prático, mas não necessariamente instrumental;

  • Aquele que é engajado naquilo que faz.


E os objetivos do livros:

  • Explicar como as pessoas se engajam de uma forma prática, mas não necessariamente instrumental em seus afazeres;

  • Explorar o que acontece quando a mão e a cabeça / a técnica e a ciência / a arte e o artesanato são separados

  • Mostrar como a cabeça, quando separada das mãos, é prejudicada, assim como o entendimento e a expressão ficam comprometidos.


Depois disso, ele passa a demonstrar como a habilidade artesanal se desenvolve em estágios, relacionados ao tempo de prática:


  • Em um primeiro momento temos a preocupação de fazer uma operação funcionar, nosso objetivo é dominar a técnica;

  • No segundo estágio, a atividade mecânica já está dada, então as pessoas passam a sentir e pensar profundamente aquilo que estão fazendo, e querem fazer bem.

  • Por último, já na maestria, as pessoas orgulham-se de seus trabalhos e artesanias.No entanto, muitas vezes esse orgulho pode ser suprimido pela sociedade que não tem permitido que os seres humanos se contentem com esta satisfação, o que leva a manifestação dos problemas éticos da artesania.


O Moderno Hefesto


Em um segundo tópico do capítulo, Sennett passa a explicar como nas civilizações arcaicas, (citando especificamente a civilização grega dos tempos do poeta Homero (928 a.C a 898 a.C.), a união entre cabeça as mãos era algo celebrado, caso de um dos poemas de Homero dedicado a Hefesto, deus ligado as artesanias.


Na época, os artesãos eram conhecidos como Demioergos, demios - público / ergon - produtivo, e reconhecidos como trabalhadores do coletivo. A ideia de um gênio individual praticamente não existia, já que havia uma importante valorização do vínculo comunitário no aprendizado de uma habilidade, tanto com os antepassados, quanto com seus pares. As habilidades evoluiriam de geração em geração, contrariando o conceito de “natalidade de Hannah Arendt”


Nota: Como sempre, para ler o "O Artífice" ´é importante conhecer a obra de Arendt, com quem Sennett está em constante diálogo. Neste caso, a noção de natalidade Arendt buscava demonstrar a relação do ser humano com o seu nascimento. A autora entendia o nascimento de um novo ser como uma ruptura com o antigo e uma possibilidade de abertura para o novo. A possibilidade de uma nova história a ser construída.


Em seguida, Sennett vai apresentar o processo de desvalorização do artífice com a chegada da era clássica grega. Para isso, cita Aristóteles, que junto com Platão foi o filósofo que marcou o pensamento da época: "Consideramos que em todas as profissões os arquitetos são mais estimáveis e sabem mais e são mais sábios que os artesãos, pois conhecem as razões das coisas que são feitas."


Aristóteles foi também quem passou a chamar o artífice de trabalhador manual, dando ares instrumental ao fazer e ignorando sua face de construtor social. Esta mudança do termo afetou especialmente as mulheres que, desde os tempos mais primitivos, tinha na tecelagem uma atividade exclusiva e que lhes conferia respeitabilidade na vida pública. Em Atenas, por exemplo, as mulheres fiavam um tecido, o peplos, que anualmente era exibido em rituais pelas ruas da cidade.


Tais mudanças, acarretaram ainda na separação de gêneros, pois a palavra artesão ficou restrita aos homens, lançando a semente da separação entre os ofícios domésticos e públicos. Ainda assim, Sennett destaca que Platão, principal filósofo da era clássica Grega, contribuiu com a ideia de artesania ao formular o conceito de Arete - padrão de excelência - implícito em qualquer ato.


No fim da era clássica, as habilidades práticas ainda sustinham a vida da cidade, mas não eram mais reconhecidas por isso, algo havia se perdido.


Continua...


Esse texto faz parte de um série sobre o livro "O Artífice", de Richard Sennett, que tem por objetivo a compreensão da mensagem na obra, e sua aproximação com as artes manuais têxteis.


Por Estefania Lima


Richard Sennett é um dos maiores intelectuais em sociologia urbana contemporânea. Ph.D. em História da Civilização Americana pela Universidade de Harvard, seu trabalho une sociologia, história, antropologia e psicologia social. Apesar de seus principais estudos estarem voltados a vida dos trabalhadores no meio urbano e questões ligadas à arquitetura das cidades, Sennett é também o autor da trilogia Projeto Homo Faber, que busca resgatar as habilidades necessárias à vida cotidiana como o fazer, a cooperação e o habitar.


O primeiro deles, o Artífice, desperta especial atenção naqueles que, como nós, se interessam pela conexão entre o fazer manual e o pensar. Para o sociólogo, todos nós podemos ser bons artesãos e, como isso, governarmos a nós mesmos.


Capa do livro "O Artífice" no Brasil editado pela Record.

Por isso, a partir de hoje, o blog da URDUME ganha uma categoria chamada “O Artífice”, onde falaremos, semanalmente, e sequencialmente, sobre trechos ou capítulos do livro. No prólogo de "O Artífice", que comentaremos a seguir, Sennett conta melhor sobre a elaboração e origem do projeto.



"O Homem criador de si mesmo"


Richard Sennett incia o "O Artífice" com o prólogo "O Homem criador de si mesmo", em que explica que este é o primeiro livro de uma série - de três volumes - dedicados à cultura material e a técnica, todos relacionados ao mito grego da caixa de Pandora. Segundo ele, um ambicioso projeto que nasce de seu desejo de sustentar, perante as ideias da filósofa alemã, Hannah Arendt, a seguinte argumentação:


"As pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, a cultura material é importante"

O que não foi capaz na juventude, quando era aluno de Arendt, e especificamente em um encontro que o autor descreve no livro, e que acontece dias após da Crise dos mísseis de Cuba, em 1962 - evento histórico, durante a Guerra Fria, marcado por uma quase guerra nuclear - no qual Arendt, ao refletir sobre o ocorrido, faz questão de reafirmar sua tese de que os homens perderam a capacidade de refletir, explicar e justificar suas ações e criações, após o período moderno.


Hannah Arendt faz parte de um geração de filósofos do começo de século XX, que vivenciou a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e os avanços tecnológicos provenientes delas, e eram resistentes às tecnologias, pois associavam a ela um tipo novo de alienação dos seres humanos, que no caso de Hannah Arendt ficaram marcados por dois importantes conceitos vita activa (labor, trabalho e ação), com o qual Sennett vai se defrontar mais diretamente em o Artífice,descrito no livro "A Condição Humana" de 1958, e a banalização do mal, descrito no livro "Eichmann em Jerusalém", de 1963.


Para entender o pensamento de Hannah vale assistir ao trecho do filme abaixo - "Hannah Arendt", de 2012. Embora a personagem esteja falando especificamente do conceito de banalização do mal, ele não deixa de ser uma continuidade de sua ideia sobre a condição humana:



Outro personagem importante de ser abordado antes de seguirmos para o posicionamento de Sennett propriamente dito, é Robert Oppenheimer, o diretor do projeto Los Alamos - responsáveis pela criação da bomba atômica. Seu caso é exemplar para o que será discutido a seguir. Embora tivesse um talento científico e administrativo de destaque, sendo o mentor e coordenadora da criação de uma arma que quase acabou com a humanidade, não demostrava refletir muito sobre o impacto de suas criações, como é possível observar nas seguintes declarações feitas por ele: "quando vemos alguma coisa tecnicamente agradável, vamos em frente e fazemos, e só pensamos no que fazer com ela depois de alcançarmos sucesso no ponto de vista técnico, foi assim coma bomba atômica" ou "Que bom entregar a humanidade em geral o maior poder possível de controlar o mundo, para que ela possa lidar com ele de acordo com seus conhecimentos e valores".



Hannah Arendt

Para Arendt tanto Eichmann, quanto Oppenheimer não estavam refletindo sobre o impacto de suas criações durante a execução de seus trabalhos, eram apenas burocratas realizando suas tarefas da melhor forma possível.


Mas não é só, antes de entendermos o pensamento de Sennett, precisamos apresentar ainda um terceiro personagem,Pandora. Seu mito, de origem grega, servirá como pano de fundo metafórico para que o autor aponte o medo ocidental do homem em relação à técnica. Para quem não se recorda das aulas de história, no mito, Pandora foi enviada a Terra por Zeus como punição pela transgressão de Prometeu, que roubou o fogo dos Deuses para dar aos homens. A Deusa tinha uma caixa onde podia guardar bens de todo o tipo, com exceção de bens materiais, e ao guardar o colar de Prometeu, que Zeus havia lhe dado, como era um bem material, ele se auto-destruiu. Em outra versão do mito, Pandora foi criada por Zeus após Prometeu ter roubado o fogo, e enviada a Terra. A Deusa tinha um único defeito, a curiosidade. Por isso, Zeus enviou junto a caixa, porque sabia que um dia, a vontade de Pandora a levaria a abri-la e libertar o mal ao mundo humano, castigando-os pelo fogo que haviam recebido contra sua vontade.


Independente da versão escolhida do mito, o importante é que ambas apontam para um medo

Caixa de Pandora

que não tem origem na tecnologia, mas na engenhosidade e curiosidade humana capazes de gerar tais artefatos.


Dito isso, é preciso dizer que para Sennett esse não parece ser um medo irracional. Afinal de contas, no começo do século 20 mais de 70 milhões de pessoas foram mortas pelas guerras e, atualmente, nos tempos de "paz tectonológica" vivemos na iminência de um colapso ambiental. A questão para Sennett é que, apesar deste medo não ser irracional, ele pode ser paralisante, e nos levar a ideia de que a solução seria "parar no tempo", abrindo mão do que o homem é capaz de construir.


No entanto, o próprio Oppenheimer em seu tempo preveniu, que "tratar a tecnologia como inimiga serviria apenas para deixar a humanidade ainda mais indefesa". Nesse sentido, pensar sobre sobre a tecnologia passa a ser essencial, e aí onde nascem as diferenças entre Arendt e Sennett.


Para a filósofa esse pensar passa pelo diálogo, a fala e a ação. É através do debate público que Arendt sugere, por exemplo, que o impasse sobre o que fazer com a bomba atômica deveria ter sido resolvido. Nesse cenário, a filósofa, herdeira dos pensadores gregos clássicos, atribui extrema importância a política e a esfera pública de debate. Já para Sennett, esse diálogo pode ser estabelecido mentalmente entre o homem e a matéria, pois acredita que pensamento e sentimento estão contidos no processo do fazer.


É por isso, que Sennet discorda da divisão que Arendt faz sobre as "condições humanas" de "excercício da vida", marcadas na distinção que a autora faz entre o Animal Laboreans x Homo Faber. O primeiro refere-se ao trabalhador braçal, condenado a rotina e que toma o seu fazer como um fim em si mesmo (como os exemplos citados acima), já o segundo, é apresentado como um tipo de trabalho que homens e mulheres fazem para criar uma vida em comum. O segundo é superior ao primeiro, pois possui uma capacidade de julgamento que o outro não tem. O homem então viveria em duas dimensões: uma na qual executaria tarefas e guiadas por um "Como" (A. Loaboreans) , e outra, mais elevada, na qual passaria a discutir e fazer avaliações coletivamente, e guiados pelo "Por quê" (H. Faber).


Aqui, farei uma explicação adicional para que possamos compreender bem a diferença entre os dois:


Para Arendt o Animal Laboreans é aquele trata dos fazeres de sobrevivência, executando tarefas que garantam sua existência corpórea, assim como uma planta ou animal. Isso o afastaria de sua condição de ser humano ( É o caso de Oppenheimer e Eichmann que "abdicaram de sua condição de seres pensantes" em prol da execução de uma tarefa que não trazia benefícios para a humanidade, mas garantiam seus sustentos e de suas famílias) .


Já o Homo Faber é também um trabalhador, mas de forma racional e política, pensando sempre no bem do pólis e do público, mas que para isso seja possível, é preciso se afastar das tarefas do corpo. Arendt é herdeira do pensamento clássico grego, onde há uma hierarquia do trabalho intelectual sobre o braçal - ou de sobrevivência - como fazer comida, roupas ou objetos de uso corriqueiro. É importante lembrarmos, que apesar de serem os pais da democracia, os gregos eram pensadores "livres", graças aos escravos que mantinham para realização das atividades que consideravam menor. Ou seja, quando Arendt põe o burocrata na conta do Animal Laboreans, ela está reforçando o pensamento discriminatório com as atividades de sobrevivência. Reforçando separações clássicas como a ideia de superioridade da arte sobre o artesanato.

Feito esse, pequeno (grande) parenteses, voltamos ao pensamento do Sennett, que ao contrário de sua professora, acredita que ao ignorar o processo original de criação, das práticas diárias com a matéria, estamos nos afastando da possibilidade de compreensão e enfrentamento dos problemas oriundos da matéria, como a bomba atômica, por exemplo. Para ele, é preciso ter uma compreensão material da produção das coisas e um materialismo* cultural vigoroso para gerar pensamentos materiais capazes de lidar com as criações materiais dos homens.


*a palavra materialismo nesse caso não tem a mesma conotação do pensamento marxista, relacionada ao consumo.


E é a partir deste contexto, que o autor, começa a estabelecer as bases do caminho que irá traçar em seu livro sobre habilidade artesanal. A expressão, que para alguns pode parecer ultrapassada após o advento da sociedade industrial, para o sociólogo é a tradução do impulso humano básico e permanente, de um trabalho bem feito por si mesmo, e que não está restrito só ao trabalho manual, mas pode ser observado em todas as áreas da vida.


Mas é claro que, diante de todo esse raciocínio anterior, Sennett não seria simplista ao afirmar que a habilidade artesanal pode ser resumida a uma disciplina advinda do desejo de ser recompensado pelo orgulho do resultado de seu trabalho. O sociólogo sabe que padrões de excelência por si só podem se tornar conflitantes quando se entrelaçam às estruturas do capitalismo, frustrações, pressões competitivas e obsessões, vide os exemplos acima e suas criações.


O que Sennett acredita é que as pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, e que a cultura material é importante, mas que para isso, precisamos compreender a cultura material como parte da natureza. Por isso, o autor traz a habilidade artesanal para relação intima entre a mão e cabeça, afirmando que todo bom artífice sustenta um diálogo entre práticas concretas e ideias, que evoluem para hábitos prolongados, criam ritmo para detecção e solução de problemas.


Por último, ele nos adianta o que estar por vir, descrevendo a forma como dividiu seu livro:


Parte I - A dificuldade da civilização ocidental em estabelecer ligações entre a cabeça e as mãos, e de reconhecer e estimular a habilidade artesanal;

Parte II - O desenvolvimento da capacitação e as teses de que todas as habilidades, até mesmo as mais abstratas, têm inicio como práticas corporais; e que o entendimento técnico se desenvolve através da força da imaginação;

Parte III - Questões de motivação e talento: O desejo de qualidade do artífice cria um perigo motivacional: a obsessão ode fazer com que as cosas saiam a perfeição pode deformar a própria obra;

Conclusão - Como o estilo do trabalho do artífice pode contribuir para ancorar as pessoas na realidade material.


E então, gostaram? Esperamos que tenha ajudado a esclarecer esse prólogo tão importante da obra de Sennett. Na semana que vem começaremos a falar da primeira parte do livro. Até lá!

Tecer e transformar fios em peças é uma ótima oportunidade para rever formas de consumo e cuidados com as roupas. Saiba como aumentar e preservar a a vida útil de suas peças e ainda colaborar com a sua saúde e do planeta.



Segundo o projeto norte-americano Fibershed, que busca conectar produtores locais ao consumidor final - colaborando para construção de um ecossistema mais sustentável para a produção e consumo de roupas - o cuidado que temos com o que vestimos é responsável por 75-80% do impacto do ciclo de vida total de uma peça. O que acontece porque, de modo geral, uma roupa fica muito mais tempo conosco, usuários, do que a cadeia de suprimentos que a criou.


Pensando nisso, resolvemos falar sobre os cuidados de manutenção que podemos ter com uma peça feita à mão, ou não, para que ela dure mais e e gere menos impacto:



Na hora de fazer, ou comprar uma peça, prefira fibras naturais, que são antimicrobianas e, por isso, necessitam de menos lavagens, diminuindo o gasto de água e o desgaste da peça;


Arejar as roupas de fibras naturais ao sol, quando as fibras são naturais a luz UV dos raios de sol é capaz de eliminar o pouco do odor que é absorvido por esse tipo de material. Horas de exposição ao sol podem diminuir, e muito, o número de lavagens de peças de lã ou algodão, por exemplo.


Utilize água fria para lavar e seque ao ar livre;


Use sabão sem perfume, sem fosfato, biodegradáveis e evite amaciantes: Embora seus efeitos não sejam percebidos imediatamente, a maioria dos produtos industrializados, feitos para limpeza das roupas, liberam substâncias químicas que podem ser agressivas para a saúde das pessoas e do meio ambiente. O uso contínuo de amaciantes, por exemplo, pode causar problemas respiratórios e de pele. Bons substitutos para esses produtos são as esferas para máquina de lavar, que auxiliam na remoção de sujeiras por ação física, ao invés de química, e o uso do vinagre com gotinhas de óleo essencial no lugar do amaciante.


Mantenha sua roupa funcional: você é o responsável pelo ciclo de vida de cada novelo ou peça de roupa que produz ou compra em uma loja. Tente prolongar o tempo de vida útil das peças adotando os cuidados descritos anteriormente, mas também pensando duas vezes antes de comprar algo novo, e dê nova vida a antigos fios ou tecidos, antes de jogá-los fora.


Por último, se você é do time que coloca a mão na massa, sabe o tempo que se leva para produção de uma malha ou tecido feito à mão. Pensando assim, na próxima vez que for comprar fios, ou peças prontas, pense no investimento a longo prazo. Apesar de mais caras, as fibras de origem natural prologam a vida do seu trabalho e do meio ambiente. Vale investir para que o barato não saia caro.

Curitiba - Brasil

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